sexta-feira, março 21, 2008

Feira do Livro


Até ao próximo dia 2 de Abril, podem visitar a feira do livro manuseado da Assírio & Alvim, na Rua Passos Manuel.

quinta-feira, março 20, 2008

Livros de Seda


Respondendo ao comentário deixado pela Lu no último post, é verdade que o olho da letra tem andado desaparecido. Não é que tenha andado afastada dos livros, muito pelo contrário, tenho andado muito ocupada a revê-los. Espero que a partir de agora o blogue vá sendo actualizado com novas leituras. Ainda assim, a ausência tem uma justificação, e uma boa justificação.

Para os mais distraídos ou ocupados, aqui fica a notícia do nascimento de uma nova editora, a Livros de Seda. Esta editora "para mulheres. A primeira do género", como assina, vem preencher um espaço até agora vazio no nosso panorama editorial, dedicando-se à leitura no feminino. No entanto, não se deixem enganar, não pensem que aqui vão encontrar obras de e para mulheres encerradas num universo quase hermético. Pelo contrário, o que melhor poderá descrever a Livros de Seda é a multiplicidade de vozes, de escritas, de leituras. A multiplicidade é uma das características das mulheres, poderia uma editora a elas dedicada ser diferente?

Os primeiro quatro títulos da Livros de Seda já estão disponíveis nas livrarias e podem também visitar o site em http://www.livrosdeseda.pt/

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Duas sugestões para o Natal

Nesta época, vemos os escaparates das livrarias carregados por novidades editoriais a competir pela atenção daqueles que procuram nos livros a prenda ideal. A menos de uma semana do Natal, deixo apenas uma pequena nota para chamar a atenção para dois dos títulos que não devem passar despercebidos.


Titânia (edição especial), Mário Cesariny, ilustrações de Cruzeiro Seixas, Assírio & Alvim, 2007.

Um dos livros que não devem deixar de procurar nas livrarias é a edição especial de Titânia de Mário Cesariny. Passado um ano sobre a morte de uma das figuras maiores da nossa literatura, a Assírio & Alvim publica uma nova edição de Titânia, com ilustrações de Cruzeiro Seixas, também ele um dos nomes que fizeram o Surrealismo português. Embora no site da editora encontremos a informação de que o livro não está disponível, é possível encontrá-lo na Fnac e, talvez, noutras livrarias.



Orlando Furioso, Ludovico Ariosto, tradução de Margarida Periquito, com ilustrações de Gustavo Doré, Cavalo de Ferro, 2007.

O Olho da Letra não podia deixar passar despercebida a edição da primeira tradução (do original, nunca é de mais realçar) para português de Orlando Furioso, tarefa que ficou a cargo da tradutora Margarida Periquito. Finalmente, podemos ler o poema épico de Ludovico Ariosto na nossa língua e numa edição cuidada da Cavalo de Ferro, que conta ainda com ilustrações de Gustave Doré. Bebendo na tradição épica dos poemas homéricos, mas não deixando de reprentar o espírito de emulação característico da estética literária da época em que foi escrito (século XVI), o poema de Ariosto foi um dos modelos de Camões. Por isso, quem leu Os Lusíadas irá certamente encontrar novas pistas de leitura que enriquecerão a epopeia portuguesa.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Byblos


É hoje inaugurada a maior livraria do País, a Byblos. A partir de amanhã de manhã, a Byblos estará aberta ao público. Se quiserem ficar a saber mais sobre o ambicioso projecto de Américo Areal, não deixem de visitar o blogue dos Booktailors, em http://www.blogtailors.blogspot.com/, onde têm vindo a ser publicados vários posts sobre este conceito inovador de livraria.

Para assinalar o acontecimento, deixo aqui o artigo de Isabel Coutinho sobre a nova livraria, publicado na edição on-line do Público.

Grande aposta em catálogo de 150 mil títulos
Byblos, a maior e mais moderna livraria portuguesa é hoje inaugurada em Lisboa

A inauguração da maior livraria portuguesa, a Byblos, um sonho antigo de Américo Areal, ex-dono das Edições Asa, está marcada para esta noite só para convidados. A livraria abre ao público amanhã, às 10h.

É um espaço gigantesco - 3300 m2 distribuídos por dois andares - e aposta no fundo editorial. Vai ter entre 120 mil e 150 mil títulos. Além de livros, a Byblos vende revistas, CD, DVD, merchandising relacionado com o livro, gifts (canetas, luzes de leitura, etc.) e tem um game center (espaço com videojogos). Ao lado das novidades, estão livros, discos, jogos e filmes que saíram há mais de seis meses e hoje são difíceis de encontrar no mercado.

É uma livraria "inteligente": usa as novas tecnologias para dar conforto ao cliente, que pode começar a gerir a sua lista de compras a partir de casa (através do site www.byblos.pt). Cada cliente terá um cartão Byblos que pode ser carregado no multibanco para compras na livraria ou no site.

Quando o PÚBLICO visitou a Byblos as tecnologias ainda não estavam a funcionar. Mas a estante robotizada com 65 mil títulos (a pesquisa faz-se num computador) já estava instalada.

Os produtos à venda estão espalhados por prateleiras, mesas, vitrinas, gavetas como em qualquer livraria. O que é inovador na Byblos é o seu mobiliário integrar um software que ajuda na localização dos livros através de etiquetas RFID - Identificação por Radiofrequência. Cada livro terá uma etiqueta electrónica que está relacionada com outra que assinala determinado lugar na prateleira. Se o livro for colocado fora do seu sítio, o sistema central detecta o erro (as prateleiras têm antenas) e envia uma mensagem de e-mail para o computador do empregado responsável por essa área na livraria. Ele tem dez minutos para colocar o livro no lugar certo.

Por sua vez, os clientes podem fazer pesquisas nos 34 ecrãs tácteis espalhados pela livraria e ficar a saber a localização exacta dos produtos que procuram. Um papel com as referências da localização é impresso pela máquina. Informações com tops de vendas, promoções e agenda aparecem nos 54 ecrãs LCD da livraria. À saída, basta ao cliente pousar os livros na caixa de pagamento (numa pilha até 80 cm de altura) e o sistema lê o conjunto de compras (através da radiofrequência) sem ser necessário passar um a um.

A Byblos tem ainda um auditório para 137 pessoas sentadas, camarim e gabinete de primeiros socorros. Na cafetaria vão servir refeições ligeiras.

A livraria vai funcionar de segunda a sábado, das 10h às 23h e ao domingo das 10h às 13h. Tem acessos pela Rua Carlos Alberto Mota Pinto, n.º 17 e pela Rua Joshua Benoliel (Amoreiras). Uma das portas dá directamente para a zona das crianças, com um barco (tem sino, leme, velas) e uma árvore com uma casa de madeira. Ali é possível brincar com jogos interactivos criados pela YDreams. Outra entrada dá para o quiosque, 280m2 com jornais e revistas especializadas.

Quatro milhões de euros

"Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria", lê-se numa das paredes, e a felicidade para o dono da livraria será quando "as pessoas pensarem em livro, pensarem na Byblos". Areal vendeu a sua empresa ao grupo de Paes do Amaral e investiu quatro milhões de euros neste projecto. Para o ano quer inaugurar uma Byblos no Porto e construir uma cadeia de livrarias no país. "Hoje o livro está disponível em gasolineiras, estações de CTT, hipermercados, tabacarias. Mas quanto mais próximo, menor é a oferta", explica. "Por isso surge a tendência oposta, a das cadeias de grandes livrarias." Em França, em 2004, faliram centenas de pequenas livrarias mas a megalivraria cresceu 5,6 por cento.

"Há um vastíssimo público que não encontra resposta para as suas necessidades. Quer dar aos seus filhos o que gostou de ler e não encontra. Em todo o lado há livrarias de fundo editorial. Não seria a altura de aparecer uma em Portugal?", afirma Areal. Para o livro estrangeiro, têm acordos internacionais e na edição portuguesa andam "à pesca" dos editores mais pequenos e da edição de autor. "Quem tiver um livro venha ter connosco porque o queremos ter disponível quer fisicamente quer na Internet", pede.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Lançamento: "O Rei na Barriga"


Terá lugar amanhã, dia 5, o lançamento do novo livro de Alexandre Parafita, O Rei na Barriga, dedicado à literatura de tradição oral. A apresentação da obra, editada pela Âmbar, decorrerá na Biblioteca Municipal de Gaia.

"Bilhete de Identidade"


Num país sem tradição memorialística, como é o caso português, no qual as memórias representam sobretudo a justificação de acções pretéritas, procurei apresentar a minha vida friamente. O facto de ter tentado registar tudo aquilo que vivi pode criar a ilusão de objectividade, mas é evidente que cada um cria a «sua» própria história e a da «sua» família.

O excerto, retirado da introdução à autobiografia de Maria Filomena Mónica, explica claramente o que se pode encontrar em Bilhete de Identidade – uma tentativa de que a objectividade presidisse à escrita destas memórias. Não obstante, a objectividade é aqui evocada não no sentido de filtrar o passado, mas no sentido de não retirar ou incluir episódios da vida por autocensura ou por outra qualquer razão. Todavia, e como se explicita na segunda parte do excerto, dificilmente poderá alguém rever a sua vida sem mácula de subjectividade. Maria Filomena Mónica não é excepção, como ela própria adverte o leitor ao afirmar que este não encontrará no seu livro a Verdade, mas apenas a sua verdade.

Ora, a falta de “tradição memorialística” a que alude a autora tem consequências também na forma como lemos um género não muito usual na nossa língua. Nos primeiros capítulos, foi comum não ver com bons olhos certas passagens, principalmente quando começaram a aparecer referências às “criadas” da família Mónica, termo que sempre me pareceu insultuoso. Depois, com a descrição da vida escolar, também senti que havia ali uma ponta de orgulho injustificada, já que a rebeldia à instituição não lhe seria perdoada se ela não proviesse de uma família como a sua. No entanto, trocando impressões com o amigo que simpaticamente me emprestou o livro, consegui aplacar a tentação de ver as memórias de outra pessoa apenas com os meus olhos. O conselho de enquadrar Maria Filomena Mónica no seu contexto foi seguido, o que me permitiu ler o livro com objectividade, definitivamente mais necessária do lado do leitor do que do lado do escritor, neste caso.

Muito embora não seja uma leitora assídua de biografias ou de autobiografias, julgo que a premissa de que partiu a autora de publicar o seu livro “sem medos, nem sentimentalismos” beneficia sobretudo o leitor. Ainda assim, e ironicamente, o tom excessivamente sentimentalista que marca as páginas em que Maria Filomena Mónica fala do seu casamento, principalmente no capítulo dedicado ao seu fim, prejudica o livro no seu todo por lhe quebrar o ritmo.

Não obstante, estas memórias ganham um novo fôlego com a ida de Maria Filomena Mónica para Inglaterra, até porque, a partir deste ponto, a vida da autora se vai cruzando de forma mais intensa com a vida política nacional. Com a Revolução de Abril, temos a possibilidade de ver esse cruzamento entre a vida pessoal da autora com a agitação social e política que marcou Portugal e, aqui sim, talvez pelo tempo já passado, é-nos dada uma visão desse período sem sentimentalismos.

Maria Filomena Mónica, Bilhete de Identidade: memórias 1943-1976, Alêtheia Editores, 2006.

domingo, dezembro 02, 2007

Livros na Gulbenkian


Até ao próximo dia 23 de Dezembro, decorre, na Fundação Calouste Gulbenkian, a terceira edição da "Festa dos Livros Gulbenkian". Para além de poderem adquirir a preços especiais os livros editados pela Fundação, podem ainda assistir ao lançamento da Fotobiografia de Amadeo de Souza-Cardoso e ao ciclo de conversas "O meu livro Gulbenkian", que contará com a presença de vários convidados.
Para mais informações, consultem o site da Fundação Calouste Gulenkian.

terça-feira, novembro 27, 2007

Fios invisíveis


O mais recente livro de Jacinto Lucas Pires, mais uma vez uma edição da editora Cotovia, é o resultado de uma estadia do autor na Ledig House International Writers Residency, em Nova Iorque, tendo sido esta a cidade escolhida para servir de cenário à história, ou histórias, de Perfeitos Milagres.

É, portanto, em Nova Iorque que vamos encontrar três núcleos de personagens que acabam por se cruzar. A primeira parte do livro, intitulada “Personagens” serve, justamente, para nos apresentar a Trick Watso, estrela pop mundial; Carlos Abroso, jornalista de um canal de televisão português; e o efémero O Grupo, composto por quatro actores: Violet, Jill, Grossman e Velasquez.

Trick está a tratar da orquídea na sala quando ouve o som. Dizem que há quem o confunda com o estrondo de uma porta, um barulho na televisão, um escape de automóvel, mas Trick Watso, a estrela planetária da pop, percebe logo que é um tiro.

Assim começa Perfeitos Milagres, pelo fim. O tiro de que fala o excerto é o tiro que Kim, mulher de Trick, dispara contra ela própria. A morte, aliás, é omnipresente no romance, embora não a narrativa não se centre nela. O tema ligado à morte recorrente no livro, é, pelo contrário, a reacção das personagens às mortes que as afectam, ou seja, as histórias acabam por se centrar nas diferentes formas encontradas para sobreviver perante a morte. Em Trick, a reacção à morte da mulher passa por se livrar de um Trick fabricado, ironicamente, fabricando uma outra identidade que lhe permita ser de novo anónimo. Além disso, a morte de Kim traz o fantasma de outra morte (de outro suicídio) que ele julgava enterrada na sua própria memória, a da mãe. É procurando compreender o que aconteceu quando ainda era Theodore, que Trick procura sobreviver a mais uma perda.

Uma outra morte assinala o fim da apresentação das personagens: o fim d’O Grupo. Constituído por quatro actores visionários, que pretendem descontextualizar o teatro tirá-lo do palco e levá-lo para o quotidiano das pessoas, O Grupo actua em entradas de hotéis, ou no meio de transeuntes na rua. No entanto, parecem falhar no principal: conseguir uma reacção das pessoas, conseguir provocá-las de modo a interromper-lhes o fluxo ininterrupto e sempre igual do correr dos dias.

Apesar de a acção se situar em Nova Iorque, o autor quis que houvesse um elemento português no seu romance e, assim, talvez se explique a personagem de Carlos Abroso. Todavia, a sua presença apenas me parece justificada na relação que mantém com outras personagens, não sendo, por si só, uma personagem interessante. Carlos parece antes uma sombra que se vai cruzando com as outras personagens.

Ainda no que diz respeito ao espaço do romance, decorrendo a acção na Nova Iorque pós-11 de Setembro, não é de surpreender que a actualidade irrompa com mais ou menos relevância na narrativa. Referências, normalmente bastante directas, à guerra, ao terrorismo, à paranóia ou a referência à situação dos suspeitos de terrorismo presos pelo governo americano são questões que também encontram aqui lugar.

Mais uma vez, os universos do cinema e do teatro, tão caros ao autor (como já tinha referido numa outra ocasião a propósito do seu livro de viagens Livro Usado), continuam a ser uma marca (bem presente) da escrita de Jacinto Lucas Pires. Nas descrições das personagens, que muitas vezes nos fazem lembrar indicações de um encenador ou realizador, ou na descrição de espaços (principalmente exteriores), em que parece estarmos a acompanhar os planos captados por uma câmara, torna-se bastante evidente que a componente visual é um dos ponto fortes de Perfeitos Milagres. Em relação ao teatro, essa presença é ainda mais evidente, como se verá, já perto do fim, em “Textos”.

Não obstante, o que mais me agradou neste romance foram sem dúvida os pormenores, as ligações que se vão fazendo entre as personagens e que não passam pela presença de umas perante as outras. São pequenas coisas (ou grandes) para se ir descobrindo durante a leitura. Mas estas ligações, este “bailado de fios invisíveis”, para usar uma expressão do livro que é também uma desses fios a descobrir, revelam, afinal, a mão criadora – uma das surpresas do livro a ser descoberta em “Autobiografia”.


Jacinto Lucas Pires, Perfeitos Milagres, Livros Cotovia, 2007.

terça-feira, novembro 13, 2007

Festival de Literatura Irlandesa


Começa amanhã, dia 14, o Festival de Literatura Irlandesa. Com um programa que engloba conferências, música, exposições, teatro e cinema, este festival irá ainda contar com a presença de escritores irlandeses.

Até dia 16, poderão assistir aos diversos eventos que terão lugar na Casa Fernando Pessoa, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e na Sociedade Guilherme Cossoul.

O programa pode ser consultado aqui.

segunda-feira, novembro 12, 2007

O espelho de Papini


O terceiro volume da colecção “A Biblioteca de Babel” reúne dez contos de Giovanni Papini, autor esquecido que Jorge Luis Borges recupera também do seu próprio esquecimento.

Diz-nos Borges na introdução a O Espelho que Foge: “À semelhança de Poe, que foi sem dúvida um dos seus mestres, Giovanni Papini não pretende que os seus contos fantásticos pareçam reais. O leitor sente desde o início a irrealidade do ambiente de cada um deles.” De facto, as situações que servem de cenário a cada história não cabem naquilo que identificamos como sendo plausível na nossa realidade. No entanto, os temas abordados nestes contos não nos podiam ser mais próximos: a identidade, o tempo, a vida e a morte equacionadas a partir destes dois vectores fundamentais.

O equilíbrio conseguido entre esta irrealidade e as personagens que não poderiam viver “fora da ficção que sucessivamente vão animando” (ainda usando as palavras de Borges) e as questões já identificadas poderá ser delicado, mas o resultado não deixa de ser extraordinário. E esta eficácia é conseguida sobretudo pela inquietação, que por seu turno é provocada pela percepção de que, neste livro, são abordadas ideias sobre a identidade, sobre a passagem do tempo e sobre a morte que a todos, mais ou menos fugazmente, já passaram pela cabeça, mas que raramente encontramos escritas de forma tão directa, aspecto para que muito contribuirá a escolha do conto como forma de apresentar a narrativa. Caso paradigmático do que falo será o conto “Não quero mais ser aquilo que sou”, em que o narrador compreende que nunca poderá ser outro que não ele e que nunca poderá viver outra vida que não a sua.

Não se pode, julgo, dizer que a perspectiva adoptada por Papini nos seus contos seja pessimista, dever-se-á antes falar de melancolia, seguindo Borges. Mas penso, igualmente, que poderemos falar de aceitação a propósito da forma como Papini aborda os temas de eleição destes seus contos. Porém, não é uma aceitação fatalista, no sentido de que as coisas são como deveriam ser. Há antes uma aceitação no sentido da compreensão de que as coisas são como são (mas, o que são?) e que funciona com ponto de partida para a desconstrução da realidade, obviamente, através do fantástico. Ainda assim, note-se que esta tentativa de perceber o que cada um é e o que é a vida não resulta numa reflexão plácida. Pelo contrário, os caminhos a que essa busca conduz revelam-se, por vezes, de forma dolorosa, senão leiam-se, por exemplo, os contos “A última visita do Cavalheiro Doente” ou “Quem és tu?”. Aqui é colocada em xeque a identidade e, consequentemente, a existência de cada um e de todos como algo que não está na nossa posse, transitando a propriedade daquilo que somos para outros (visíveis ou invisíveis) dos quais não só depende a nossa existência, mas que também fazem de nós o que somos. Por outro lado, em “O espelho que foge” é a própria vida que é vista à luz do absurdo.

Em relação aos contos reunidos neste volume, é difícil, senão injusto, destacar um ou outro, uma vez que eles compõem um conjunto bastante homogéneo, fazendo d' O Espelho que Foge um título que não deve passar despercebido dentro d’ “A Biblioteca de Babel”.