quarta-feira, maio 16, 2007

APEL e UEP

Cito o Diário Digital:

Os presidentes das duas associações de editores portuguesas, a UEP e a APEL, anunciaram hoje a resolução a curto prazo de todos os conflitos que as separaram desde 1999.

Em conferência de imprensa conjunta com Carlos Veiga Ferreira, da União de Editores Portugueses (UEP), o presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), António Baptista Lopes, anunciou «a resolução a muito curto prazo de todos os conflitos que separaram as duas associações».

Os acordos estão já prontos, indicou o mesmo responsável, e «só falta» formalizá-los.

Esta formalização, segundo o presidente da UEP, poderá ocorrer durante as próximas Feiras do Livros de Lisboa e do Porto, que começam no dia 24.

«O clima conflitual, que se traduziu até em alguns casos em acções judiciais», está, assegurou Veiga Ferreira, definitivamente sanado.

O mesmo editor considerou ser possível «vaticinar» uma associação unitária de editores no futuro.

«Não quero fazer futurismo, mas acho que caminharemos para o que acontece noutros países, isto é, uma associação de livreiros e uma associação de editores», disse.

O clima de conflito entre as duas associações iniciou-se aquando da organização da Feira do Livro de Lisboa em 1999.

Este ano, as duas associações organizam em conjunto as feiras do livro de Lisboa e do Porto, o que levou Baptista Lopes a afirmar que se vive «um clima de pacificação e concórdia».

Segundo os dois responsáveis, pontos de divergência como a modernização e profissionalização do sector editorial são agora encarados da mesma forma por ambas as associações.

Ainda durante a conferência de imprensa, Baptista Lopes referiu-se à UEP nestes termos: «São amigos e colegas com os quais começaremos a trilhar um caminho de modo mais solidário».

Diário Digital / Lusa

domingo, maio 13, 2007

Um romance e um documento



Acerca da obra de Maria Archer, disse a estudiosa Ana Paula Ferreira que, nas suas páginas, a escritora «deixou-nos o que se pode considerar um panorama da vida privada, ou das mentalidades e condutas características de certa faixa burguesa e pequeno-burguesa da sociedade portuguesa entre as décadas de trinta e cinquenta.»* Nada lhe Será Perdoado é um bom exemplo para ilustrar a afirmação de Ana Paula Ferreira.

Atribuindo à sua narrativa um forte cunho biográfico e, consequentemente, verídico, a narradora adverte reservar-se apenas ao papel de veículo, de «pena de romancista» usada para contar a história de outrem. Assim nos é apresentada a história que se irá centrar na figura de Biluca Morgado, menina criada no seio da alta burguesia do Algarve, mas dentro da qual é sempre uma filha bastarda. O romance, que parte da simplicidade de contar a vida acidentada de uma mulher, é, também, motivo para retratar, com uma crueza jornalística, uma burguesia provinciana, regida por um jogo de interesses e de aparências cujas regras impõem que se exclua e se estigmatize quem não souber jogar.

Depois de um casamento fracassado, Biluca vê na possibilidade de cortar laços com a família o caminho para alcançar a sua independência, mudando-se para a capital. Mas Lisboa, cidade cosmopolita, não a livra dos ouvidos e das bocas do Algarve. Esta mulher, agora livre, vai descobrir que nem todas as diferenças são para melhor e rapidamente percebe que em Lisboa, como em Faro, a inocência e a transparência não são características que lhe garantam a sobrevivência.

Em cada episódio da vida de Biluca Morgado, a escritora deixa-nos uma crítica aguda e de precisão cirúrgica a uma sociedade que esconde os seus podres debaixo do tapete do imaculado lar. O problema do papel estereotipado da mulher na sociedade — esposa, mãe, crente, discreta e obediente — vivido em plenitude, pelo menos na aparência, é, neste romance, colocado numa dupla perspectiva. A questão das mentalidades é talvez, a mais evidente desde o início, desde que é traçado o perfil da sociedade algarvia. Porém, se a personagem de Nada lhe Será Perdoado encontrou a coragem para enfrentar essa sociedade, materializando essa coragem no confronto com a avó, e se aprendeu a contorná-la em Lisboa pelo fingimento, há um último obstáculo que ela não consegue vencer. Na realidade, o problema que, julgo, Maria Archer mais insiste em expor e em tornar evidente é o da independência económica. Não há verdadeira independência sem independência económica e, como bem alerta a escritora, não tendo acesso a algo tão básico como dinheiro e sem meios próprios para o conseguir, Biluca não poderia ter outro fim senão o fracasso.

*A Urgência de Contar. Contos de Mulheres dos anos 40, organização de Ana Paula Ferreira, Editorial Caminho, Lisboa, 2002, p. 277.

Edição usada:
Nada Lhe Será Perdoado, Maria Archer, Edições SIT, Lisboa, s/d.

Podem encontrar esta obra na edição da Pareceria A. M. Pereira.

sexta-feira, maio 11, 2007

Poesia na SPA

A Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) promove nos próximos dias 14, 21 e 30, em Lisboa, três debates sobre a poesia portuguesa e a sua função nos tempos que correm.

António Carlos Cortez, crítico de poesia, enquadra os movimentos e as obras ao longo dos três debates.
Na segunda-feira, estarão em foco os anos 60, a poesia de Fiama Hasse Pais Brandão, Luísa Neto Jorge e Ruy Belo.
No dia 21, o debate centra-se nos anos 70 e na poesia de Nuno Júdice, António Osório, Joaquim Manuel Magalhães e João Miguel Fernandes Jorge.
No último debate, dia 30, são os últimos 20 anos e a poesia de Luís Miguel Nava, Paulo Teixeira, Manuel Gusmão, Luís Quintais e Daniel Faria o tema da conversa.

Os debates começam às 18:30 na sede da SPA, em Lisboa.

Diário Digital / Lusa

quinta-feira, maio 10, 2007

"Leitura furiosa"

Tomei conhecimento desta iniciativa através do Jornal de Notícias, de onde retiro o texto abaixo transcrito.

O objectivo é ir ao encontro de jovens excluídos que, pelas mais variadas razões, arredaram os livros das suas vidas. Por isso, a iniciativa não podia ter outro nome nem os destinatários poderiam ser outros "Leitura furiosa" arranca hoje, no Porto, junto de grupos de "zangados com a leitura" do Centro Educativo Santo António e da Qualificar para Incluir. O programa começa com encontros entre os escritores Regina Guimarães e Pedro Eiras e jovens das referidas instituições.

A partir dessas conversas, que vão decorrer durante o dia de hoje, cada um dos escritores envolvidos vai elaborar um texto que, amanhã, será discutido e corrigido com os intervenientes, em sessões que vão contar com a presença de João Alves e Sofia Lomba, a quem cabe ilustrar este trabalho. Ao fim do dia, os textos são enviados para a associação Cardan, que desenvolve este projecto em França desde 1993. Este ano, além do Porto, também a cidade de Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, se alia à iniciativa da associação, sediada em Amiens.

Os escritos resultantes dos encontros do Porto e de Amiens, assim como as respectivas ilustrações, serão publicados na edição de domingo do Jornal de Notícias. Para esse dia está marcada uma sessão pública de leituras musicadas, com base nesses textos, pela voz de Ana Deus. Será no Museu de Serralves, a partir das 16 horas.

No âmbito da "Leitura furiosa" está ainda prevista uma ronda por várias livrarias do Porto, na manhã de sábado, que culminará com uma visita à Biblioteca Almeida Garrett. A ideia é que nesse passeio participem, se não todos, pelo menos alguns dos jovens envolvidos nesta iniciativa.

Segundo Regina Guimarães, este projecto "não é uma oficina da escrita nem uma oficina de leitura". "Leitura furiosa" parte de encontros "entre escritores com obra publicada e grupos de pessoas que, por razões diversas, não lêem ou não gostam de ler". Tudo para "fazer com que essas pessoas presenciem um momento que vai ter existência escrita" e, por outro lado, "fazer com que pessoas que, liminarmente, rejeitam a leitura, possam reconsiderar essa relação negativa", conclui.

"Leitura furiosa" é uma iniciativa do Serviço Educativo de Serralves, tendo sido estabelecidos protocolos com as citadas instituições.

quinta-feira, maio 03, 2007

Ler os clássicos




Li Homero pela primeira vez quando entrei para a faculdade, o que rapidamente se provou ser um erro, ainda que por razões que parecem fazer afronta às regras mais básicas da lógica. A altura não foi a melhor: comecei a ler a Ilíada e a Odisseia tarde demais e cedo demais. Tarde demais, porque não devia ter esperado até que ler Homero fosse uma obrigação; cedo demais, porque quando o fiz ainda não existiam as traduções de Frederico Lourenço e as edições da Cotovia. Li, pois, a Ilíada e a Odisseia em duas edições de bolso, o que, desde logo, antevi ser meio caminho andado para uma leitura penosa. E, realmente, foi penoso ler os feitos de Aquiles e de Ulisses numa tradução de outra tradução, com um corpo de letra minúsculo, com uma mancha que não deixa espaços em branco, nem para o leitor respirar.

Durante noites a fio, mais do que as que seriam necessárias para ler os dois volumes, me debati com a vontade de ler tudo na diagonal, e o dever de ler, no fundo, uma das mais importantes matrizes da literatura ocidental. Ler a Odisseia era mais fácil, a narrativa das aventuras de Ulisses parece resistir melhor, pelo menos para mim, a uma má edição. Terá ajudado, muito provavelmente, o facto de ter lido, ainda em criança, a adaptação do texto homérico feita por João de Barros e já conhecer todos os episódios da viagem de Ulisses. Quanto à Ilíada, devo confessar que a tarefa não foi tão fácil e, muito honestamente, a cada página que passava, não via a hora de Aquiles matar Heitor. Em abono da verdade, para esta impaciência não ajudava o facto de ter de ler a Ilíada quase em contra-relógio, uma vez que em fila de espera já se encontravam a Odisseia e a Eneida.

Mesmo assim, julgo que o grande problema está em haver quem ainda não tenha compreendido que ler um livro numa edição de bolso não tem que ser um castigo que quem não tem a possibilidade de comprar outras edições tem que sofrer. Uma edição de bolso, como o comprovam os livros ingleses, franceses ou, aqui mais perto, espanhóis, pode ter um custo mais baixo sem que isso resulte num produto de fraca qualidade. Não podemos esquecer que o compromisso de um editor para com os compradores dos seus livros não é apenas o de ir acrescentando títulos ao seu catálogo, mas sim, e principalmente, de fazer chegar até aos leitores objectos de qualidade, tanto ao nível de conteúdos como ao nível gráfico. Um bom livro não se faz simplesmente com um bom texto e um mau livro pode desvirtuar a leitura de uma obra, por melhor que esta seja.

Apesar de tudo, li os dois livros, integralmente. Porém, passado o alívio inicial, a leitura não me deixou em bons termos com Homero. Eu sabia que tinha lido, mas não sentia como se tivesse realmente lido. Não consegui apropriar-me do texto. Quando as novas edições da Ilíada e da Odisseia foram publicadas com a chancela da Cotovia, e tive oportunidade de as ir folheando nas livrarias, comecei a achar que estava na altura ler os clássicos novamente, em especial a Ilíada. Ainda não o pude fazer, mas vou lendo a Ilíada num suporte alternativo. A beleza dos clássicos, é que, em relação a eles, o verbo «ler» não se usa no passado, porque a sua leitura não acaba no acto físico de abrir um livro, de ler, de ir virando as páginas. A minha leitura da Ilíada é, afinal, contínua e sempre renovada, sem que eu tenha voltado a abrir o meu livro.

domingo, abril 22, 2007

"E se eu gostasse muito de morrer"



Primeiro romance do jornalista Rui Cardoso Martins, E se eu gostasse muito de morrer parte de um facto («são estatísticas e está tudo em números») e de uma pergunta inevitável: a taxa de suicídios é mais elevada no Alentejo do que no resto do país. Porquê?

O livro de Rui Cardoso Martins foi publicado ainda em 2006 e foi há cerca de dois meses que o li, depois de assistir a uma apresentação da obra feita pelo autor, na Biblioteca Municipal de Póvoa de Santa Iria. Ao ouvir o escritor falar da sua obra era impossível não satisfazer a curiosidade com que fiquei em relação a este livro, que, aliás, já me tinha chamado a atenção nos escaparates das livrarias, obviamente pelo título.

E se eu gostasse muito de morrer, título que é, também, uma citação da obra maior de Dostoievski, Crime e Castigo, aborda em forma de romance um tema que parece, pelo menos à primeira vista, mais fácil de tratar num estudo sociológico do que numa obra de ficção. A escolha singular, todavia, não me tornou de modo nenhum céptica em relação ao livro. Muito pelo contrário, já que era grande a vontade de o ler e descobrir qual a maneira encontrada por Rui Cardoso Martins para versar sobre este tema no género por ele eleito.

À partida, eram dois os problemas que me pareciam poder dificultar a tarefa de centrar um romance no que, afinal, é um dado estatístico e, no reverso da medalha, uma realidade humana de contornos trágicos. Ou a narrativa acabaria por mergulhar demasiado no lado mais dramático do suicídio, ou, no extremo oposto, à força de querer abordar a questão de forma excessivamente objectiva, o resultado seria, justamente, um estudo sociológico e não um romance.

Felizmente, Rui Cardoso Martins conduz a narrativa sem cair em nenhum dos extremos, facto que muito deve à escolha do narrador. Um rapaz que perdeu a sua mais importante ligação ao mundo exterior oferece-nos a sua visão peculiar do mundo, do Alentejo (onde sempre viveu), das pessoas que o rodeiam... É esta marca pessoal que nos conduz numa série de episódios em que a tragédia é contada com ironia e, por vezes, até com humor (negro, claro está). A perda de alguém que não morreu, deixa o narrador sozinho a contas com um lugar cuja história é feita da memória dos que ali optaram pela morte. É intrusada na morte nos outros que vamos ficando a conhecer a vida do nosso narrador, sendo a sua própria história fragmentada ao longo do livro (espelho do que mundo em que vivemos?).

E se eu gostasse muito de morrer fala-nos de um Alentejo distante da miragem de paredes caiadas de branco e vida calma que nos habituamos a evocar sempre que pensamos no sul do país. Aqui, é uma imagem decadente daquela região que é trazida à superfície; um Alentejo marcado por uma realidade ainda por explicar. Ao chegarmos à última página, a questão inicial continua sem resposta: porquê?... Abyssus abyssum invocat.


Rui Cardoso Martins, E se eu gostasse muito de morrer, 3.ª edição, Dom Quixote, Lisboa, 2007.


sábado, abril 21, 2007

Anna Enquist


Disse, há uns tempos, que a poesia passaria a estar mais presente no Olho da Letra. A partir de agora deixarei aqui os poemas e os poetas que vou descobrindo (ou redescobrindo).

Hoje, é um poema da holandesa Anna Enquist que aqui fica. Anna Enquist (1945), pseudónimo escolhido por Christa Widlund-Boer, viu o seu primeiro livro de poemas, Soldatenliederen (título que poderá ser traduzido em português como “canções de soldados”), publicado em 1991. Embora a maior parte da sua obra seja dedicada à poesia, é também autora de romances. Alguns dos seus livros já foram traduzidos entre nós (O Segredo e A Obra-prima), mas ainda não conheço a Anna Enquist romancista.

Descobri o poema “Mentiras em tempo de Groselhas” numa antologia de poesia neerlandesa, editada pela Assírio & Alvim. Uma Migalha na Saia do Universo reúne poemas belgas e holandeses do século XX, numa selecção de Gerrit Komrij. Se tiverem oportunidade, vale a pena lerem este livro, a começar pela introdução de Gerrit Komrij. Uma vez que esta é uma edição bilingue, aqui fica o poema de Anna Enquist em neerlandês e em português.

Leugens in Bessentijd

Welke constructie is steviger, heeft langer
standgehouden. En hoe meer er wonen, hoe
minder je wegkomt. Waarheen. Het verlangen
is een zomerhuis zonder kookplaats en zonder
geschiedenis. Hier ben ik omdat ik hier ben.


Vannacht was ik wakker, het waaide, regen
striemde de kastanje terwijl het al licht werd,
de nacht had geen rust gebracht. Ik wist
wel hoe dat zat, ging slapen en ontwaakte
in een stille morgen, wit van verdriet.

Men kan niet blijven zeuren. De pruimen
ploffen rottend van de bomen, in de koude
tuin worden de kleuren snel ouder.
Alles er-
varen zonder verdoving, pannen klaarzetten en
suiker, archieven beheren, scherven bewaren.

Mentiras em tempo de groselha

Que construção é mais sólida, se aguentou
mais tempo. E quantos mais aí moram, menos se
a consegue abandonar. Para onde. Anseia-se
por uma casa de Verão sem um fogão e sem
história. Estou aqui porque estou aqui.


Esta noite estive acordada, fazia vento, chuvas
fustigavam o castanheiro, enquanto já vinha o dia,

a noite não tinha trazido paz. Eu sabia

como eram as coisas, fui dormir e acordei

numa manhã de silêncio, lívida de tristezas.


Não se pode continuar com lamúrias. As ameixas
baqueiam podres das árvores, no frio
quintal as cores envelhecem velozes. Experi-
mentar tudo sem anestesia, pôr a postos as panelas e
o açúcar, gerir os arquivos, guardar os cacos.


Uma Migalha na Saia do Universo, selecção e introdução de Gerrit Komrij, tradução de Fernando Venâncio, Assírio & Alvim, Lisboa, 1997.

sexta-feira, abril 20, 2007

"Vou morar no arco-íris"

Tendo percorrido escolas de norte a sul do país para estar mais perto dos seus leitores e melhor lhes dar a conhecer a sua obra, Alexandre Parafita irá agora apresentar o seu mais recente livro. Será no Dia Mundial do Livro, na próxima segunda-feira, a próxima sessão de lançamento de Vou Morar no Arco-íris, num encontro que terá lugar na Biblioteca Municipal de Murça. Fica aqui a notícia para quem passar os olhos por estas letras e viva naquela zona do país. Para quem viver mais a sul, não se esqueçam de procurar o título Vou Morar no Arco-íris numa próxima visita a uma livraria.

terça-feira, abril 17, 2007

Biblioteca pessoal de Calouste Gulbenkian

Soube hoje, ao abrir a minha caixa de correio electrónico, que a biblioteca pessoal de Calouste Gulbenkian vai estar disponível online a partir do próximo dia 19. A apresentação pública desta biblioteca vai realizar-se no mesmo dia pelas 16h. Fica aqui a notícia completa que pode também ser consultada no site da Gulbenkian.


A biblioteca pessoal de Calouste Gulbenkan vai estar disponível para consulta a partir de 19 de Abril no site www.bibliotecaparticular.gulbenkian.pt. O projecto resulta de dois anos de trabalho de identificação, catalogação e recuperação dos cerca de três mil volumes que constituem a biblioteca pessoal do fundador e foi desenvolvido no âmbito das comemorações do cinquentenário da Fundação.

Calouste Gulbenkian reuniu ao longo da sua vida uma importante biblioteca actualmente dividida em dois grandes núcleos. O núcleo constituído pela colecção de manuscritos e obras impressas que ilustram a Arte do Livro no Oriente e no Ocidente, entre os séculos XIII e primeira metade do século XX, encontra-se integrado no acervo do Museu Gulbenkian. O outro núcleo, constituído por cerca de três mil títulos de publicações abrangendo os mais diversos domínios do conhecimento, encontra-se depositado no fundo documental da Biblioteca de Arte, tendo dado origem a muitas das secções temáticas – Pintura, Arquitectura, Desenho, Mobiliário, Cerâmica - da sua actual organização.

Este núcleo, agora disponibilizado para consulta, constitui um instrumento importante para a compreensão da personalidade, dos gostos e preferências estéticas do Fundador, revelando uma parte relativamente desconhecida do legado cujo acesso é reservado, por razões que se prendem com o seu inegável valor patrimonial.

segunda-feira, abril 09, 2007

Teatro Popular Mirandês

Tomei conhecimento da iniciativa através do Jornal de Notícias e a curiosidade encarregou-se de me fazer chegar até ao site do Centro de Estudos António Maria Mourinho. A notícia dava conta do projecto levado a cabo pelo referido centro de estudos de publicar na Internet trinta textos do Teatro Popular Mirandês. A edição destas peças é feita com base em textos que fazem parte do espólio do Padre António Marinho e vem, assim, colocar ao alcance de todos um importante documento literário e cultural que, permanecendo escondido, correria o risco de cair no esquecimento e acabar por se perder.

A publicação destes «colóquios» do Teatro Popular Mirandês, como é dito no texto de apresentação colocado no site, irá realizar-se de duas formas, uma vez que cada texto irá ser disponibilizado em edição digitalizada e em edição interpretativa. A primeira é o resultado da escolha de um exemplar, no caso de haver mais do que um no espólio, para o efeito; a segunda passou já por um processo de normalização de aspectos gráficos e ortográficos, devidamente identificados na informação dada acerca dos critérios de edição, e é acompanhada por notas explicativas referentes, por exemplo, a «mirandesismos e às muitas referências culturais, etnográficas ou históricas à Terra de Miranda, de mais difícil percepção para quem não fale mirandês ou não conheça a história da região.» Se a edição digitalizada, potencialmente, irá interessar mais a linguistas, como é referido no site, e, acrescento eu, todos aqueles que tenham conhecimentos de linguística e se interessem por esta área do saber, já a edição interpretativa tem a virtude de poder levar o Teatro Popular Mirandês a um público mais vasto. Importa também dizer que, após a publicação on-line, prevê-se a publicação destes textos em livro.

Diz Francisco Pinto, jornalista que assina esta notícia sobre a publicação do Teatro Popular Mirandês, que «os textos não se destinam apenas a investigadores mas também a grupos de teatro e associações que pretendam levar à cena este género de representação.» Eu digo que esta iniciativa certamente interessará a todos os leitores e a todos quantos se preocupam com as perdas provocadas pelo esquecimento.


Centro de Estudos António Maria Mourinho

Teatro Popular Mirandês