domingo, setembro 03, 2006

A antologia



Publicada pela primeira vez em 1963, pela editora Minotauro, a antologia Surrealismo/Abjeccionismo, organizada por Mário Cesariny, reúne textos (sejam eles feitos de palavras, de traços ou de imagens) de nomes que marcaram a arte e a literatura feitas em Portugal no século xx.

Apesar do título dado à antologia, nela não encontramos exclusivamente autores ligados ou associados de forma mais directa ao Surrealismo português. Assim o provam a inclusão de um conto de Irene Lisboa, ou a presença de Almada Negreiros entre os nomes escolhidos por Mário Cesariny. Julgo que, por isso, será justo pensar que a escolha dos nomes a figurar na antologia não terá sido feita em função da militância em relação ao movimento surrealista, até porque o termo ‘militância’ é avesso à liberdade criadora (ou destruidora) que marca e é condição sem a qual não poderíamos sequer falar de Surrealismo.

O que este volume contém é, isso sim, um conjunto de textos que servem de introdução, porque é impossível esgotar tudo o que foi feito sobre e no Surrealismo num só livro, ao pensamento e à criação surrealistas. Nas páginas de Surrealismo/Abjeccionismo encontramos a relação do Surrealismo com o passado e com os seus contemporâneos, nem sempre pacífica, se pensarmos no Neo-Realismo (leia-se, a este propósito, o texto que abre esta antologia, de Afonso Cautela). Mais importante que tudo, vemos que, no caos destruidor, há uma coesão que nos permite hoje falar do Surrealismo português enquanto movimento que requer uma reflexão sobre a sua natureza e sobre a produção artística dos seus intervenientes. Mas será talvez nas palavras destes que encontramos o melhor manual de aprendizagem:

Diga-se, apesar disso: — Enriquecimento não no sentido de se construir, mas no de se destruir, precisamente, não me enganei — DESTRUIR. Deixemos a dialéctica no bolso dos fáceis, explica mas não realiza, desvia o conhecimento, contrai. Destruir é construir? Engano: destruir é realizar-se outro objecto ou noutro mas nunca construi-lo.
(António Maria Lisboa, «Certos outros sinais»)

Actualmente, este livro encontra-se disponível em edição fac-similada do original de 1963, publicada pela editora Salamandra.

Surrealismo/Abjeccionismo, antologia seleccionada por Mário Cesariny de Vasconcelos, Edições Salamandra, Lisboa, 1992.

Disponível aqui

1 comentário:

Extratexto disse...

Dá-me ideia que ele pretendeu reavivar a ideia de Breton quando, no manifesto surrealista, citou os percursores do movimento, gente que nada tinha de surrealista excepto os factos positivos que os surrealistas foram aproveitar. Autores como Guy de Maupassant, por exemplo.