quarta-feira, dezembro 19, 2007

Duas sugestões para o Natal

Nesta época, vemos os escaparates das livrarias carregados por novidades editoriais a competir pela atenção daqueles que procuram nos livros a prenda ideal. A menos de uma semana do Natal, deixo apenas uma pequena nota para chamar a atenção para dois dos títulos que não devem passar despercebidos.


Titânia (edição especial), Mário Cesariny, ilustrações de Cruzeiro Seixas, Assírio & Alvim, 2007.

Um dos livros que não devem deixar de procurar nas livrarias é a edição especial de Titânia de Mário Cesariny. Passado um ano sobre a morte de uma das figuras maiores da nossa literatura, a Assírio & Alvim publica uma nova edição de Titânia, com ilustrações de Cruzeiro Seixas, também ele um dos nomes que fizeram o Surrealismo português. Embora no site da editora encontremos a informação de que o livro não está disponível, é possível encontrá-lo na Fnac e, talvez, noutras livrarias.



Orlando Furioso, Ludovico Ariosto, tradução de Margarida Periquito, com ilustrações de Gustavo Doré, Cavalo de Ferro, 2007.

O Olho da Letra não podia deixar passar despercebida a edição da primeira tradução (do original, nunca é de mais realçar) para português de Orlando Furioso, tarefa que ficou a cargo da tradutora Margarida Periquito. Finalmente, podemos ler o poema épico de Ludovico Ariosto na nossa língua e numa edição cuidada da Cavalo de Ferro, que conta ainda com ilustrações de Gustave Doré. Bebendo na tradição épica dos poemas homéricos, mas não deixando de reprentar o espírito de emulação característico da estética literária da época em que foi escrito (século XVI), o poema de Ariosto foi um dos modelos de Camões. Por isso, quem leu Os Lusíadas irá certamente encontrar novas pistas de leitura que enriquecerão a epopeia portuguesa.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Byblos


É hoje inaugurada a maior livraria do País, a Byblos. A partir de amanhã de manhã, a Byblos estará aberta ao público. Se quiserem ficar a saber mais sobre o ambicioso projecto de Américo Areal, não deixem de visitar o blogue dos Booktailors, em http://www.blogtailors.blogspot.com/, onde têm vindo a ser publicados vários posts sobre este conceito inovador de livraria.

Para assinalar o acontecimento, deixo aqui o artigo de Isabel Coutinho sobre a nova livraria, publicado na edição on-line do Público.

Grande aposta em catálogo de 150 mil títulos
Byblos, a maior e mais moderna livraria portuguesa é hoje inaugurada em Lisboa

A inauguração da maior livraria portuguesa, a Byblos, um sonho antigo de Américo Areal, ex-dono das Edições Asa, está marcada para esta noite só para convidados. A livraria abre ao público amanhã, às 10h.

É um espaço gigantesco - 3300 m2 distribuídos por dois andares - e aposta no fundo editorial. Vai ter entre 120 mil e 150 mil títulos. Além de livros, a Byblos vende revistas, CD, DVD, merchandising relacionado com o livro, gifts (canetas, luzes de leitura, etc.) e tem um game center (espaço com videojogos). Ao lado das novidades, estão livros, discos, jogos e filmes que saíram há mais de seis meses e hoje são difíceis de encontrar no mercado.

É uma livraria "inteligente": usa as novas tecnologias para dar conforto ao cliente, que pode começar a gerir a sua lista de compras a partir de casa (através do site www.byblos.pt). Cada cliente terá um cartão Byblos que pode ser carregado no multibanco para compras na livraria ou no site.

Quando o PÚBLICO visitou a Byblos as tecnologias ainda não estavam a funcionar. Mas a estante robotizada com 65 mil títulos (a pesquisa faz-se num computador) já estava instalada.

Os produtos à venda estão espalhados por prateleiras, mesas, vitrinas, gavetas como em qualquer livraria. O que é inovador na Byblos é o seu mobiliário integrar um software que ajuda na localização dos livros através de etiquetas RFID - Identificação por Radiofrequência. Cada livro terá uma etiqueta electrónica que está relacionada com outra que assinala determinado lugar na prateleira. Se o livro for colocado fora do seu sítio, o sistema central detecta o erro (as prateleiras têm antenas) e envia uma mensagem de e-mail para o computador do empregado responsável por essa área na livraria. Ele tem dez minutos para colocar o livro no lugar certo.

Por sua vez, os clientes podem fazer pesquisas nos 34 ecrãs tácteis espalhados pela livraria e ficar a saber a localização exacta dos produtos que procuram. Um papel com as referências da localização é impresso pela máquina. Informações com tops de vendas, promoções e agenda aparecem nos 54 ecrãs LCD da livraria. À saída, basta ao cliente pousar os livros na caixa de pagamento (numa pilha até 80 cm de altura) e o sistema lê o conjunto de compras (através da radiofrequência) sem ser necessário passar um a um.

A Byblos tem ainda um auditório para 137 pessoas sentadas, camarim e gabinete de primeiros socorros. Na cafetaria vão servir refeições ligeiras.

A livraria vai funcionar de segunda a sábado, das 10h às 23h e ao domingo das 10h às 13h. Tem acessos pela Rua Carlos Alberto Mota Pinto, n.º 17 e pela Rua Joshua Benoliel (Amoreiras). Uma das portas dá directamente para a zona das crianças, com um barco (tem sino, leme, velas) e uma árvore com uma casa de madeira. Ali é possível brincar com jogos interactivos criados pela YDreams. Outra entrada dá para o quiosque, 280m2 com jornais e revistas especializadas.

Quatro milhões de euros

"Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria", lê-se numa das paredes, e a felicidade para o dono da livraria será quando "as pessoas pensarem em livro, pensarem na Byblos". Areal vendeu a sua empresa ao grupo de Paes do Amaral e investiu quatro milhões de euros neste projecto. Para o ano quer inaugurar uma Byblos no Porto e construir uma cadeia de livrarias no país. "Hoje o livro está disponível em gasolineiras, estações de CTT, hipermercados, tabacarias. Mas quanto mais próximo, menor é a oferta", explica. "Por isso surge a tendência oposta, a das cadeias de grandes livrarias." Em França, em 2004, faliram centenas de pequenas livrarias mas a megalivraria cresceu 5,6 por cento.

"Há um vastíssimo público que não encontra resposta para as suas necessidades. Quer dar aos seus filhos o que gostou de ler e não encontra. Em todo o lado há livrarias de fundo editorial. Não seria a altura de aparecer uma em Portugal?", afirma Areal. Para o livro estrangeiro, têm acordos internacionais e na edição portuguesa andam "à pesca" dos editores mais pequenos e da edição de autor. "Quem tiver um livro venha ter connosco porque o queremos ter disponível quer fisicamente quer na Internet", pede.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Lançamento: "O Rei na Barriga"


Terá lugar amanhã, dia 5, o lançamento do novo livro de Alexandre Parafita, O Rei na Barriga, dedicado à literatura de tradição oral. A apresentação da obra, editada pela Âmbar, decorrerá na Biblioteca Municipal de Gaia.

"Bilhete de Identidade"


Num país sem tradição memorialística, como é o caso português, no qual as memórias representam sobretudo a justificação de acções pretéritas, procurei apresentar a minha vida friamente. O facto de ter tentado registar tudo aquilo que vivi pode criar a ilusão de objectividade, mas é evidente que cada um cria a «sua» própria história e a da «sua» família.

O excerto, retirado da introdução à autobiografia de Maria Filomena Mónica, explica claramente o que se pode encontrar em Bilhete de Identidade – uma tentativa de que a objectividade presidisse à escrita destas memórias. Não obstante, a objectividade é aqui evocada não no sentido de filtrar o passado, mas no sentido de não retirar ou incluir episódios da vida por autocensura ou por outra qualquer razão. Todavia, e como se explicita na segunda parte do excerto, dificilmente poderá alguém rever a sua vida sem mácula de subjectividade. Maria Filomena Mónica não é excepção, como ela própria adverte o leitor ao afirmar que este não encontrará no seu livro a Verdade, mas apenas a sua verdade.

Ora, a falta de “tradição memorialística” a que alude a autora tem consequências também na forma como lemos um género não muito usual na nossa língua. Nos primeiros capítulos, foi comum não ver com bons olhos certas passagens, principalmente quando começaram a aparecer referências às “criadas” da família Mónica, termo que sempre me pareceu insultuoso. Depois, com a descrição da vida escolar, também senti que havia ali uma ponta de orgulho injustificada, já que a rebeldia à instituição não lhe seria perdoada se ela não proviesse de uma família como a sua. No entanto, trocando impressões com o amigo que simpaticamente me emprestou o livro, consegui aplacar a tentação de ver as memórias de outra pessoa apenas com os meus olhos. O conselho de enquadrar Maria Filomena Mónica no seu contexto foi seguido, o que me permitiu ler o livro com objectividade, definitivamente mais necessária do lado do leitor do que do lado do escritor, neste caso.

Muito embora não seja uma leitora assídua de biografias ou de autobiografias, julgo que a premissa de que partiu a autora de publicar o seu livro “sem medos, nem sentimentalismos” beneficia sobretudo o leitor. Ainda assim, e ironicamente, o tom excessivamente sentimentalista que marca as páginas em que Maria Filomena Mónica fala do seu casamento, principalmente no capítulo dedicado ao seu fim, prejudica o livro no seu todo por lhe quebrar o ritmo.

Não obstante, estas memórias ganham um novo fôlego com a ida de Maria Filomena Mónica para Inglaterra, até porque, a partir deste ponto, a vida da autora se vai cruzando de forma mais intensa com a vida política nacional. Com a Revolução de Abril, temos a possibilidade de ver esse cruzamento entre a vida pessoal da autora com a agitação social e política que marcou Portugal e, aqui sim, talvez pelo tempo já passado, é-nos dada uma visão desse período sem sentimentalismos.

Maria Filomena Mónica, Bilhete de Identidade: memórias 1943-1976, Alêtheia Editores, 2006.

domingo, dezembro 02, 2007

Livros na Gulbenkian


Até ao próximo dia 23 de Dezembro, decorre, na Fundação Calouste Gulbenkian, a terceira edição da "Festa dos Livros Gulbenkian". Para além de poderem adquirir a preços especiais os livros editados pela Fundação, podem ainda assistir ao lançamento da Fotobiografia de Amadeo de Souza-Cardoso e ao ciclo de conversas "O meu livro Gulbenkian", que contará com a presença de vários convidados.
Para mais informações, consultem o site da Fundação Calouste Gulenkian.

terça-feira, novembro 27, 2007

Fios invisíveis


O mais recente livro de Jacinto Lucas Pires, mais uma vez uma edição da editora Cotovia, é o resultado de uma estadia do autor na Ledig House International Writers Residency, em Nova Iorque, tendo sido esta a cidade escolhida para servir de cenário à história, ou histórias, de Perfeitos Milagres.

É, portanto, em Nova Iorque que vamos encontrar três núcleos de personagens que acabam por se cruzar. A primeira parte do livro, intitulada “Personagens” serve, justamente, para nos apresentar a Trick Watso, estrela pop mundial; Carlos Abroso, jornalista de um canal de televisão português; e o efémero O Grupo, composto por quatro actores: Violet, Jill, Grossman e Velasquez.

Trick está a tratar da orquídea na sala quando ouve o som. Dizem que há quem o confunda com o estrondo de uma porta, um barulho na televisão, um escape de automóvel, mas Trick Watso, a estrela planetária da pop, percebe logo que é um tiro.

Assim começa Perfeitos Milagres, pelo fim. O tiro de que fala o excerto é o tiro que Kim, mulher de Trick, dispara contra ela própria. A morte, aliás, é omnipresente no romance, embora não a narrativa não se centre nela. O tema ligado à morte recorrente no livro, é, pelo contrário, a reacção das personagens às mortes que as afectam, ou seja, as histórias acabam por se centrar nas diferentes formas encontradas para sobreviver perante a morte. Em Trick, a reacção à morte da mulher passa por se livrar de um Trick fabricado, ironicamente, fabricando uma outra identidade que lhe permita ser de novo anónimo. Além disso, a morte de Kim traz o fantasma de outra morte (de outro suicídio) que ele julgava enterrada na sua própria memória, a da mãe. É procurando compreender o que aconteceu quando ainda era Theodore, que Trick procura sobreviver a mais uma perda.

Uma outra morte assinala o fim da apresentação das personagens: o fim d’O Grupo. Constituído por quatro actores visionários, que pretendem descontextualizar o teatro tirá-lo do palco e levá-lo para o quotidiano das pessoas, O Grupo actua em entradas de hotéis, ou no meio de transeuntes na rua. No entanto, parecem falhar no principal: conseguir uma reacção das pessoas, conseguir provocá-las de modo a interromper-lhes o fluxo ininterrupto e sempre igual do correr dos dias.

Apesar de a acção se situar em Nova Iorque, o autor quis que houvesse um elemento português no seu romance e, assim, talvez se explique a personagem de Carlos Abroso. Todavia, a sua presença apenas me parece justificada na relação que mantém com outras personagens, não sendo, por si só, uma personagem interessante. Carlos parece antes uma sombra que se vai cruzando com as outras personagens.

Ainda no que diz respeito ao espaço do romance, decorrendo a acção na Nova Iorque pós-11 de Setembro, não é de surpreender que a actualidade irrompa com mais ou menos relevância na narrativa. Referências, normalmente bastante directas, à guerra, ao terrorismo, à paranóia ou a referência à situação dos suspeitos de terrorismo presos pelo governo americano são questões que também encontram aqui lugar.

Mais uma vez, os universos do cinema e do teatro, tão caros ao autor (como já tinha referido numa outra ocasião a propósito do seu livro de viagens Livro Usado), continuam a ser uma marca (bem presente) da escrita de Jacinto Lucas Pires. Nas descrições das personagens, que muitas vezes nos fazem lembrar indicações de um encenador ou realizador, ou na descrição de espaços (principalmente exteriores), em que parece estarmos a acompanhar os planos captados por uma câmara, torna-se bastante evidente que a componente visual é um dos ponto fortes de Perfeitos Milagres. Em relação ao teatro, essa presença é ainda mais evidente, como se verá, já perto do fim, em “Textos”.

Não obstante, o que mais me agradou neste romance foram sem dúvida os pormenores, as ligações que se vão fazendo entre as personagens e que não passam pela presença de umas perante as outras. São pequenas coisas (ou grandes) para se ir descobrindo durante a leitura. Mas estas ligações, este “bailado de fios invisíveis”, para usar uma expressão do livro que é também uma desses fios a descobrir, revelam, afinal, a mão criadora – uma das surpresas do livro a ser descoberta em “Autobiografia”.


Jacinto Lucas Pires, Perfeitos Milagres, Livros Cotovia, 2007.

terça-feira, novembro 13, 2007

Festival de Literatura Irlandesa


Começa amanhã, dia 14, o Festival de Literatura Irlandesa. Com um programa que engloba conferências, música, exposições, teatro e cinema, este festival irá ainda contar com a presença de escritores irlandeses.

Até dia 16, poderão assistir aos diversos eventos que terão lugar na Casa Fernando Pessoa, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e na Sociedade Guilherme Cossoul.

O programa pode ser consultado aqui.

segunda-feira, novembro 12, 2007

O espelho de Papini


O terceiro volume da colecção “A Biblioteca de Babel” reúne dez contos de Giovanni Papini, autor esquecido que Jorge Luis Borges recupera também do seu próprio esquecimento.

Diz-nos Borges na introdução a O Espelho que Foge: “À semelhança de Poe, que foi sem dúvida um dos seus mestres, Giovanni Papini não pretende que os seus contos fantásticos pareçam reais. O leitor sente desde o início a irrealidade do ambiente de cada um deles.” De facto, as situações que servem de cenário a cada história não cabem naquilo que identificamos como sendo plausível na nossa realidade. No entanto, os temas abordados nestes contos não nos podiam ser mais próximos: a identidade, o tempo, a vida e a morte equacionadas a partir destes dois vectores fundamentais.

O equilíbrio conseguido entre esta irrealidade e as personagens que não poderiam viver “fora da ficção que sucessivamente vão animando” (ainda usando as palavras de Borges) e as questões já identificadas poderá ser delicado, mas o resultado não deixa de ser extraordinário. E esta eficácia é conseguida sobretudo pela inquietação, que por seu turno é provocada pela percepção de que, neste livro, são abordadas ideias sobre a identidade, sobre a passagem do tempo e sobre a morte que a todos, mais ou menos fugazmente, já passaram pela cabeça, mas que raramente encontramos escritas de forma tão directa, aspecto para que muito contribuirá a escolha do conto como forma de apresentar a narrativa. Caso paradigmático do que falo será o conto “Não quero mais ser aquilo que sou”, em que o narrador compreende que nunca poderá ser outro que não ele e que nunca poderá viver outra vida que não a sua.

Não se pode, julgo, dizer que a perspectiva adoptada por Papini nos seus contos seja pessimista, dever-se-á antes falar de melancolia, seguindo Borges. Mas penso, igualmente, que poderemos falar de aceitação a propósito da forma como Papini aborda os temas de eleição destes seus contos. Porém, não é uma aceitação fatalista, no sentido de que as coisas são como deveriam ser. Há antes uma aceitação no sentido da compreensão de que as coisas são como são (mas, o que são?) e que funciona com ponto de partida para a desconstrução da realidade, obviamente, através do fantástico. Ainda assim, note-se que esta tentativa de perceber o que cada um é e o que é a vida não resulta numa reflexão plácida. Pelo contrário, os caminhos a que essa busca conduz revelam-se, por vezes, de forma dolorosa, senão leiam-se, por exemplo, os contos “A última visita do Cavalheiro Doente” ou “Quem és tu?”. Aqui é colocada em xeque a identidade e, consequentemente, a existência de cada um e de todos como algo que não está na nossa posse, transitando a propriedade daquilo que somos para outros (visíveis ou invisíveis) dos quais não só depende a nossa existência, mas que também fazem de nós o que somos. Por outro lado, em “O espelho que foge” é a própria vida que é vista à luz do absurdo.

Em relação aos contos reunidos neste volume, é difícil, senão injusto, destacar um ou outro, uma vez que eles compõem um conjunto bastante homogéneo, fazendo d' O Espelho que Foge um título que não deve passar despercebido dentro d’ “A Biblioteca de Babel”.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Pop Art


a: a novel foi o primeiro livro escrito por Andy Warhol, embora tenha sido publicado apenas em 1968 (a título de curiosidade, alguns meses depois de Valerie Solanas ter tentado matar Warhol), segundo nos informa Victor Brockis, no glossário que encontramos no fim desta edição.

Apesar de ter o livro há algum tempo, agora que o doclisboa vai exibir Andy Warhol: A Documentary Film, no próximo domingo, no cinema S. Jorge, pareceu-me a altura ideal para o ler.

O livro de Warhol, porém, dificilmente poderá ser visto como isso mesmo, um livro. Quer dizer, é, de facto, um livro, no entanto, é, acima de tudo, mais um digno representante da pop art. Nascido de gravações feitas entre 1965 e 1967, o livro documenta fragmentos que, no seu conjunto, formam um retrato da vida daqueles que gravitavam à volta da famosa Factory. Aqui, destacam-se Ondine, o actor de Chelsea Girls, mais uma vez no papel principal, e as conversas em que Lou Reed participou e que andam à volta dos Velvet Underground (não esqueçamos que em 1967 é editado o primeiro álbum da banda, produzido pelo próprio Wahrol) e, obviamente, de drogas (a também é a primeira letra de anfetaminas).

Se se quiserem aventurar na leitura de a podem contar com uma escrita completamente fragmentada, que resulta da transcrição feita por quatro pessoas e sem qualquer tipo de correcção, já que Andy Warhol parece ter gostado do efeito caótico. Aliás, a acção de Warhol sobre a versão em bruto, por assim dizer, destes diálogos, consistiu em tornar o texto ainda mais obscuro.

Fundamental antes de iniciar a leitura de a: a novel é, sem dúvida, ler o glossário de Victor Brockis (biógrafo de Warhol) onde é explicada a génese do livro e onde é incluída a lista de personagens e lugares, devidamente contextualizados, que vão surgindo ao longo destas 451 páginas de pop art com a assinatura de Andy Wahrol.

Andy Warhol, a: a novel, Virgin Books, 2005.

sábado, outubro 20, 2007

Sugestão: doclisboa


Amanhã, no pequeno auditório da Culturgest, pelas 14h15, é exibido o documentário Notes on Marie Menken. Fica feita a sugestão (espero que seja uma boa sugestão) e deixo aqui o texto de apresentação do filme, que se encontra no site do Doclisboa 2007.

"Notes on Marie Menken" explora a história quase esquecida de um dos nomes mais importantes do cinema underground americano entre os anos quarenta e sessenta, influenciando realizadores tão conhecidos como Stan Brakhage, Andy Warhol, Jonas Mekas ou Kenneth Anger. Musa inspiradora do romance "Who's Afraid of Virgina Wolf" de Edward Albee, Marie Menken (1909-1970) foi uma figura ímpar da cultura nova-iorquina, tendo realizado dezenas de filmes e participado em várias obras de Andy Warhol. Com música original de John Zorn, o documentário de Martina Kudlácek inclui vários filmes inéditos de Menken, incluindo um "duelo cinematográfico" entre a realizadora e Warhol.

"Nomes com História"



Numa parceria entre os hipermercados Modelo e Continente e a Zero a Oito, empresa especializada em marketing infantil, como se lê na apresentação do seu site, tem vindo a ser publicada uma colecção de livros infantis dedicada a figuras históricas portuguesas: “Nomes com História”.

Desde Viriato até ao Marquês de Pombal, passando por Inês de Castro, cada título está a cargo de um autor e de um ilustrador diferentes, sendo que todos os livros contam com a revisão técnica da Associação de Professores de História.

Para além da narrativa dedicada a uma figura marcante da nossa História, houve ainda o cuidado de incluir em cada livro uma cronologia que ajudará as crianças a compreenderem melhor a época em que a personagem (real) da narrativa que acabaram de ler viveu. Os leitores podem também testar os conhecimentos adquiridos através de cada título respondendo às questões que lhes são colocadas em “Será que sabes?”.

Já foram colocados à venda (em exclusivo no Modelo e Continente, incluindo na loja on-line) todos os volumes, se não estou em erro. Porém, falo só agora da colecção porque estive impacientemente à espera de ver publicado o livro ilustrado por uma vizinha e, sobretudo, amiga do Olho da Letra. Em conjunto com o texto de Ana Oom, as ilustrações da Inês Rosa dão forma e cor a um Infante D. Henrique de ar sonhador, mas cuja determinação lhe valeu o cognome de O Navegador.

Se já visitaram o blogue Tintas aos Montes, conhecem o trabalho da Inês. Agora, podem vê-lo aplicado a algo que lhe é particularmente querido, a literatura infantil. É, pois, com Infante D. Henrique que o trabalho da Inês pode, pela primeira vez, ser apreciado em forma de livro.

Nota: para verem imagens das ilustrações que a Inês fez para este livro, visitem o seu blogue.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Booktailors

Ontem, os convidados do programa de Pedro Rolo Duarte na Antena 1 foram os Booktailors, consultores editoriais. Se não tiveram oportunidade de ouvir a conversa com Nuno Seabra Lopes e Paulo Ferreira no domingo, podem agora aceder ao podcast do programa na página da Antena 1.

Para todos os que se interessam pelo mundo da edição e querem ficar a conhecer mais sobre esta área, em particular, em Portugal, esta é uma entrevista a não perder.

Não deixem também de visitar o site Booktailors e o blogue Blogtailors para ficarem a conhecer melhor o trabalho desenvolvido por Nuno Seabra Lopes e Paulo Ferreira.

domingo, setembro 02, 2007

Andando em círculos



A proposta de Taras Grescoe no seu livro The Devil’s Picnic é simples: uma viagem a vários países em busca do fruto proibido. Partindo deste desafio, o autor propõe uma reflexão sobre as razões que levam à proibição do consumo de certos produtos, bem como sobre as consequências dessas mesmas restrições. Sejam quais forem os motivos apresentados por cada governo, a conclusão de Grescoe, que é, fundamentalmente, a tese por ele defendida, é invariavelmente a mesma: o fruto proibido é sempre o mais apetecido.

Clichés à parte, quer se esteja a falar das restrições impostas aos noruegueses no que diz respeito ao consumo de bebidas alcoólicas, ou às leis que visam controlar o consumo de queijo feito a partir de leite não pasteurizado, na França, os resultados de tais proibições acabam por ter consequências mais nefastas nos povos por elas afectados do que o consumo livre desses produtos alguma vez teria. Esta é a conclusão a que o autor chega em cada capítulo, onde são abordados um país e uma proibição diferentes.

Não há dúvida de que Grescoe procedeu a uma aturada pesquisa sobre a cultura dos países por ele visitados, assim como sobre as leis que os regem. Além disso, não passa despercebido o estudo que o autor fez sobre a história das proibições um pouco por todo o mundo. No entanto, e por mais interessantes que os dados e curiosidades por ele apresentados possam ser, o livro acaba por ser demasiado circular e repetitivo. Por outras palavras, a estrutura do primeiro capítulo (dedicado à sua viagem à Noruega) é repetida como fórmula em todos os outros capítulos. Há uma proibição que é questionada, seguindo-se a verificação in loco dos efeitos dessa mesma proibição, a procura de factos e estatísticas que suportem a tese do autor e a comparação com outros casos semelhantes dentro ou fora do país ou região em causa.

Assim, e apesar do tom humorístico com que Taras Grescoe tenta marcar as suas viagens, este não deixa de ser um livro que talvez fique aquém as expectativas, tanto para quem procura um livro de viagens como para quem procura uma possível história do fruto proibido.


Taras Grescoe, The Devil's Picnic: Around the World in Pursuit of Forbidden Fruit, Bloomsbury, 2005.

terça-feira, agosto 28, 2007

Na blogosfera


Resta-me agradecer à Minda, autora do blogue Infinito's, por distinguir este blogue.
O Olho da Letra, por sua vez, recomenda vivamente a leitura dos blogues que encontram na lista apropriadamente intitulada "Com olhos de ver..."

quarta-feira, agosto 22, 2007

A obsessão segundo Doistoiévski



O Jogador, um dos romances mais conhecidos e importantes de Dostoiévski, a par de Crime e Castigo e de Os Irmãos Karamázov, é apontado, também, como o livro em que o escritor russo mais leva para dentro da ficção a sua própria vida.

O jogo, obsessão que vai tomando conta da personagem principal deste livro, Alexis Ivanovitch, durante a sua permanência na fictícia cidade de Rolemtemburgo, foi também um vício que Dostoiévski viveu. Não é, pois, de estranhar que todo o ambiente das salas de jogo seja descrito com uma proximidade e conhecimento que podemos atribuir tanto ao jogador como ao romancista. A profundidade que Dostoiévski alcança na descrição da psicologia de um jogador é, mais do que impressionante (adjectivo que, no caso, me parece um pouco vazio), claustrofóbica.

Muito embora o vício do jogo seja claramente o centro de todo o romance e o dinheiro pareça ser sempre o ponto que define as relações entre todas as personagens, o amor, tratado como obsessão e como gerador de uma violência latente na iminênica de extravasar, é, neste romance, o contraponto que nos permite entender de que modo o jogo conduz a uma total alienação, bem visível na última conversa entre Mr. Astley e Alexis, que serve, também, de conclusão ao livro.

Apesar de Dostoiévski não ser, por ventura, o tipo de leitura que procuremos em plena silly season, garanto que não vai ser um livro abandonado ao fim de poucas páginas.

Apenas uma palavra em relação à tradução, tendo lido outros livros de Dostoiévski publicados pela Presença e traduzidos por Nina Guerra e Filipe Guerra, directamente do russo, não pude deixar de estranhar um pouco esta tradução de Delfim de Brito (Guimarães Editores). Para quem, como eu, também está habituado às traduções da dupla Nina Guerra e Filipe Guerra, deixo, em baixo, o link para os sites das duas editoras.


Fiódor Dostoiévski, O Jogador, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Editorial Presença.

Fiódor Dostoiévski, O Jogador, tradução de Delfim de Brito, Guimarães Editores.


quinta-feira, agosto 16, 2007

1 Ano!




O Olho da Letra faz hoje um ano.

Muito obrigada a todos os visitantes e leitores e bem-vindos a mais um ano de leituras.

quarta-feira, agosto 15, 2007

Leituras indispensáveis



Título de um conto de Jorge Luís Borges, “A Biblioteca de Babel” é também o nome atribuído à colecção dedicada à literatura fantástica dirigida pelo escritor argentino. Tendo começado a ser publicada na década de setenta, “A Biblioteca de Babel” acabou por incluir mais de trinta títulos, todos escolhidos e prefaciados por Borges.

Nos últimos meses (julgo que desde Março ou Abril), a editora Presença tem vindo a publicar os livros desta colecção, dando, assim, pela primeira vez, oportunidade aos portugueses de lerem, na sua língua, alguns dos autores caros a Borges.

Já com cinco livros disponíveis nas livrarias, esta é sem dúvida uma colecção a não perder. Para além do evidente valor histórico de termos nas nossas livrarias a colecção editada à mais de trinta anos atrás por Franco Maria Riccci, “A Biblioteca de Babel” tem, a meu ver, a grande qualidade de reunir autores sobejamente conhecidos, como Allan Poe ou Kafka, para dar apenas dois exemplos, e autores esquecidos ou nunca reconhecidos. Trata-se, pois, de uma iniciativa editorial única, a seguir de perto nos próximos tempos.

Como já referi, foram já cinco os volumes de “A Biblioteca de Babel” publicados pela Presença. Aqui ficam os títulos e respectivos autores a procurar numa próxima passagem por uma livraria.

“A Biblioteca de Babel”

1. Gustav Meyrink, O Cardeal Napellus

2. Pedro A. de Alarcón, O Amigo da Morte

3. Giovanni Papini, O Espelho que Foge

4. Henry James, Os Amigos dos Amigos

5. Arthur Machen, A Pirâmide de Fogo

segunda-feira, junho 25, 2007

Com outros olhos


Depois de algumas semanas de ausência, o Olho da Letra vai voltar ao ritmo normal, agora, também, com mais tempo para as leituras. A leitura das histórias inverosímeis de Christa Wolf, que foi interrompida pelo acréscimo do volume de trabalho, terá de ser recomeçada e ainda me esperam as últimas aquisições feitas durante a Feira do Livro. Entretanto, a silly season vai ser uma boa altura para rever algumas leituras.

Precisamente para renovar o modo como vemos certas obras, lembrei-me de reler a crítica de T. S. Eliot a Hamlet, e que se encontra recolhida no volume Ensaios Escolhidos, publicada pela editora Cotovia. Quando partimos para a leitura de certas obras, como é o caso de Hamlet de Shakespeare, que adquiriram o estatuto de obras-primas da literatura, começamos a ler com o conforto de sabermos que esse título que lhes é atribuído nos liberta de uma postura crítica e objectiva mais rigorosa. Por outras palavras, liberta-nos, a nós leitores, do trabalho individual de desconstrução do texto (nos seus mais variados aspectos) e deixa-nos apenas com a obsessão de ver o que outros já viram. Se a opinião geral, e até esmagadora, sobre a peça de Shakespeare é a de que estamos perante a obra complexa de um génio, todo o trabalho de descodificação textual vai ser empregue em acompanhar o génio e não em questioná-lo, em tentar vencer a anunciada complexidade e não em compreender os mecanismos responsáveis por essa dita complexidade.

Não foi este, porém, o caminho seguido por T. S. Eliot no seu ensaio sobre Hamlet. Não só o seu texto expõe o que ele entende como sendo as fragilidades da crítica que o antecedeu, como defende que aquela que é considerada a obra maior de Shakespeare é, na verdade, “um insucesso artístico” (p. 19). Aliás, numa frase, Eliot consegue resumir de forma clara e lapidar o seu ponto de vista acerca da peça e da leitura generalizada que é dela é feita: “E provavelmente mais pessoas considerariam Hamlet uma obra de arte porque a acharam interessante, do que a acharam interessante porque é uma obra de arte. É a «Mona Lisa» da literatura” (p. 19).

Não vou aqui fazer um resumo dos argumentos usados por Eliot no seu ensaio, porque me parece mais relevante que cada um faça a sua leitura de Eliot e que, depois, vá questionar o que é aparentemente inquestionável, seja Hamlet, seja outra qualquer obra. A mérito do texto de Eliot não está em ficarmos convencidos de que Hamlet é um “insucesso artístico”, como o próprio diz. Podemos ou não concordar com Eliot, total ou parcialmente, mas o que realmente importa é perceber que a crítica literária não serve para ser aceite ou reprovada cegamente, tão-pouco serve para ser parafraseada ou até mesmo debitada. O papel da crítica não é o de nos levar a ler com os olhos dos outros. Deve ser, em primeiro lugar, o de nos obrigar a ler com outros olhos.



T.S. Eliot, Ensaios Escolhidos, selecção, tradução e notas e Maria Adelaide Ramos, Livros Cotovia.

quarta-feira, maio 30, 2007

Retrato simpático de uma leitora


Promete José Régio na dedicatória que antecede a sua novela Davam Grandes Passeios aos Domingos... que este será o seu “primeiro retrato simpático de rapariga”. Todavia, não é tanto essa a impressão com que me deixou a leitura do primeiro capítulo desta novela. Ao assistir à chegada de Rosa Maria a Portalegre, sozinha, ingénua, julguei que a tentativa de traçar o tal “retrato simpático de rapariga” tinha afinal resultado num olhar condescendente sobre a personagem criada pelo próprio Régio.

Depois de ficar órfã, Rosa Maria é acolhida por familiares ricos de Portalegre. Todos os que frequentam a casa dos tios e dos primos funcionam como um bloco linear, onde cada personagem é porta-estandarte de certas características que o narrador faz questão de habilmente evidenciar através do uso do discurso indirecto, ao olhar crítico do leitor. É na convivência com esta alta sociedade de província que a rapariga vai despertando desse torpor cândido que era a sua vida até então.

Esta aprendizagem progressiva de Rosa Maria e a sua evolução de carácter é transposta para o texto em vários momentos. Dois aspectos me parecem, no entanto, particularmente interessantes. O primeiro está ligado com as transformações que vão ocorrendo na maneira como Rosa Maria vê aqueles que a rodeiam e de como a percepção cada vez mais aguda da sua futilidade a divide entre um sentimento de desprezo e superioridade e, ao mesmo tempo, a culpa por se sentir assim em relação aos familiares que ainda vê como seus benfeitores:

Mas era quase contra vontade, e pelo irresistível agir dum espírito de observação que se lhe impunha como alheio, (pois, mau grado esse espírito, ainda então havia nela muita puerilidade) que Rosa Maria fulgurantemente criticava, em tais momentos fugidios, todos que a cercavam. Em tais momentos não podia deixar de vagamente lhes sentir superior — a todos! Não passavam, porém, de esquivos momentos que, por censura interior mal consciente, pendia a reprimir ou esquecer, acusando-se de ingrata e presumida. (p.33)

A puerilidade de que se fala nesta passagem vai desaparecendo até ao momento de viragem brusca, já perto do fim da novela, que transforma irreversivelmente Rosa Maria. Mas, o ponto que é, para mim, mais curioso no texto é a relação da personagem como a literatura. Régio recupera para a sua novela um tópico bastante corrente na literatura do século XIX: os efeitos da leitura na sensibilidade feminina. De resto, esta relação de Rosa Maria com a leitura é a também uma forma de revelar as mudanças que a personagem vai sofrendo ao longo da novela. Se quando ainda vivia com a mãe, as duas liam tudo (à excepção “dos Eças” que a mãe havia escrupulosamente guardado do olhos da filha), pois embora distinguissem os livros “melhores dos inferiores”, não conseguiam criticá-los, depois da reviravolta que lhe faz ver que a vida é, na realidade, bastante diferente da existência ficcional das heroínas dos romances, torna-se numa leitora diferente. Se antes a leitura resultava no desejo de imitação, no fim da novela descobre novos prazeres na leitura e as comparações são feitas por contraste. Por isso, o que mais me encantou neste texto não foi o tal “retrato simpático de rapariga” prometido por Régio, mas sim o poder assistir à transformação de uma leitora ingénua numa leitora crítica.

E como nunca reconhecera tão bem a profundeza de certas observações, a delicadeza de certos pormenores, a justeza de certas análises — nunca a leitura lhe dera assim um prazer ao mesmo tempo intenso e subtil. Lá consigo, e independentemente do juízo fosse de quem fosse, Rosa Maria sabia, agora, reconhecer um livro sincero e verdadeiro. Mas até os mais ingénuos continuavam a interessá-la: era como se brincasse entre crianças, para se esquecer de haver crescido. A verdade é que procurava aconchegar-se nesses mundos imaginários contra a realidade agreste ou baça. (pp. 90-91)

Edição utilizada:

José Régio, Davam Grandes Passeios aos Domingos e outros contos, Editores Associados, s.l., s.d.

segunda-feira, maio 21, 2007

When is a book out of print?


“When is a book out of print?” é a pergunta que está a gerar controvérsia entre editoras e autores e é, também, a frase que abre o artigo «Publisher and authors parse a term: out of print», datado já de dia 18, mas que só ontem tive a oportunidade de ler.
A leitura deste artigo recomenda-se, entre outras razões, por ser um convite à reflexão sobre as consequências (positivas e negativas) que os avanços tecnológicos têm, em concreto, no mundo editorial e de que modo essas mudanças obrigam a uma reavaliação, neste caso, de fronteiras.
Perante as possibilidades oferecidas pelo print-on-demand, a editora Simon & Schuster decidiu rever um aspecto contratual que está a deixar os autores descontentes.
Deixo aqui um excerto do artigo que pode ser lido na íntegra aqui.

Traditionally, if a book falls out of print, authors are contractually allowed to ask their publishers for their rights back so that the author can try to have the book republished somewhere else.

(…)

But with the advent of technologies like print-on-demand, publishers have been able to reduce the number of back copies that they keep in warehouses. Simon & Schuster, which until now has required that a book sell a minimum number of copies through print-on-demand technology to be deemed in print, has removed that lower limit in its new contract.

domingo, maio 20, 2007

“Man with a movie camera”



Publicado em 2001, com a chancela da editora Cotovia, Livro Usado, de Jacinto Lucas Pires, surgiu integrado na colecção «Série Oriental / Viagens». Reunindo vários autores de língua portuguesa, José Eduardo Agualusa, Bernardo Carvalho e Paulo José Miranda, para além do próprio Jacinto Lucas Pires, a «Série Oriental / Viagens» resulta de uma parceria entre a Cotovia e a Fundação Oriente. Para os escritores o desafio consistiu em viajarem para países como Goa, Mongólia, Macau ou Japão e registarem em forma de livro as suas visões do Oriente.

O resultado da viagem de Jacinto Lucas Pires ao Japão é o seu Livro Usado, um livro de viagens cuja leitura nos faz esquecer que o que temos nas mãos é um livro, parecendo, ao invés, que estamos a espreitar as notas que outra pessoa apontou sobre a sua viagem. Parece, realmente, um caderno em forma de livro o que chegou até nós, com o registo do percurso do escritor pelas cidades japonesas que visitou, das impressões e dos pequenos incidentes do quotidiano, através dos quais se marca, no fundo, a nossa igualdade, mas também a nossa individualidade cultural. Se são as coisas mais banais que nos contam que a vida corre da mesma maneira a Este (as pessoas que passeiam nos jardins em Tóquio ou que regressam a casa ao fim do dia são as mesmas aqui ou no Japão), são, do mesmo modo, os pequenos pormenores que nos lembram que estamos num mundo diferente do nosso: no metro, “uma mulher pequena, de óculos e com uma máscara de cirurgião na boca”; “um rosto de fada ou de bruxa, todo pintado de branco”; um homem novo que se levanta do seu lugar na carruagem para, em sinal de respeito, cumprimentar um outro homem, mais velho, com uma vénia, retribuída pelo outro de forma mais comedida (pp. 16 e 17).

Afinal, diz-nos o próprio Jacinto Lucas Pires, numa intromissão da escrita na observação da vida, que o objectivo não é outro senão o de “escrever sobre a vida, fazer da vida o assunto, compreender a vida” (p.21). A frase “óbvia” e “difícil” é, na verdade, o que está por trás de cada cidade, de cada descrição, de cada pessoa que se vê na rua, escolhida como actor, actriz ou figurante das cenas que se vão desenrolando perante os nossos olhos.

Os universos cinematográfico e teatral são presença e método de escrita, poder-se-á dizer, que não passam despercebidos neste livro: “Logo a seguir, como num filme, um rapaz lança-se a correr atrás de uma rapariga que é só um ponto lá ao fundo, longe. A multidão de velhos de tichârte, jovens executivos e mulheres novas de sapatos altos fica pasmada a olhar. O rapaz corre, corre, mas quando está mesmo a apanhá-la, a rapariga, lembrando-se de alguma coisa, pára e dá meia volta; e os dois acabam por ir um contra o outro, surpresos e felizes (como num filme).” (p.20); “De manhã, sob o céu branco, as pessoas aparecendo na rua como num palco, numa peça de teatro nô” (p. 28). À transposição, meticulosa e de uma visualidade acutilante, para palavras da luz das cidades, do seu movimento próprio não é estranha a linguagem própria do cinema e do teatro, áreas nas quais o autor também tem desenvolvido uma intensa actividade. Este cruzamento da escrita com o aspecto visual do cinema e do teatro transformam cada momento do dia, numa cidade distante, em objecto plástico, cada cidade num acontecimento cénico, no qual nem o próprio escritor se esquiva de participar, fazendo das palavras câmara que acompanha a sua descoberta do Japão.

quarta-feira, maio 16, 2007

APEL e UEP

Cito o Diário Digital:

Os presidentes das duas associações de editores portuguesas, a UEP e a APEL, anunciaram hoje a resolução a curto prazo de todos os conflitos que as separaram desde 1999.

Em conferência de imprensa conjunta com Carlos Veiga Ferreira, da União de Editores Portugueses (UEP), o presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), António Baptista Lopes, anunciou «a resolução a muito curto prazo de todos os conflitos que separaram as duas associações».

Os acordos estão já prontos, indicou o mesmo responsável, e «só falta» formalizá-los.

Esta formalização, segundo o presidente da UEP, poderá ocorrer durante as próximas Feiras do Livros de Lisboa e do Porto, que começam no dia 24.

«O clima conflitual, que se traduziu até em alguns casos em acções judiciais», está, assegurou Veiga Ferreira, definitivamente sanado.

O mesmo editor considerou ser possível «vaticinar» uma associação unitária de editores no futuro.

«Não quero fazer futurismo, mas acho que caminharemos para o que acontece noutros países, isto é, uma associação de livreiros e uma associação de editores», disse.

O clima de conflito entre as duas associações iniciou-se aquando da organização da Feira do Livro de Lisboa em 1999.

Este ano, as duas associações organizam em conjunto as feiras do livro de Lisboa e do Porto, o que levou Baptista Lopes a afirmar que se vive «um clima de pacificação e concórdia».

Segundo os dois responsáveis, pontos de divergência como a modernização e profissionalização do sector editorial são agora encarados da mesma forma por ambas as associações.

Ainda durante a conferência de imprensa, Baptista Lopes referiu-se à UEP nestes termos: «São amigos e colegas com os quais começaremos a trilhar um caminho de modo mais solidário».

Diário Digital / Lusa

domingo, maio 13, 2007

Um romance e um documento



Acerca da obra de Maria Archer, disse a estudiosa Ana Paula Ferreira que, nas suas páginas, a escritora «deixou-nos o que se pode considerar um panorama da vida privada, ou das mentalidades e condutas características de certa faixa burguesa e pequeno-burguesa da sociedade portuguesa entre as décadas de trinta e cinquenta.»* Nada lhe Será Perdoado é um bom exemplo para ilustrar a afirmação de Ana Paula Ferreira.

Atribuindo à sua narrativa um forte cunho biográfico e, consequentemente, verídico, a narradora adverte reservar-se apenas ao papel de veículo, de «pena de romancista» usada para contar a história de outrem. Assim nos é apresentada a história que se irá centrar na figura de Biluca Morgado, menina criada no seio da alta burguesia do Algarve, mas dentro da qual é sempre uma filha bastarda. O romance, que parte da simplicidade de contar a vida acidentada de uma mulher, é, também, motivo para retratar, com uma crueza jornalística, uma burguesia provinciana, regida por um jogo de interesses e de aparências cujas regras impõem que se exclua e se estigmatize quem não souber jogar.

Depois de um casamento fracassado, Biluca vê na possibilidade de cortar laços com a família o caminho para alcançar a sua independência, mudando-se para a capital. Mas Lisboa, cidade cosmopolita, não a livra dos ouvidos e das bocas do Algarve. Esta mulher, agora livre, vai descobrir que nem todas as diferenças são para melhor e rapidamente percebe que em Lisboa, como em Faro, a inocência e a transparência não são características que lhe garantam a sobrevivência.

Em cada episódio da vida de Biluca Morgado, a escritora deixa-nos uma crítica aguda e de precisão cirúrgica a uma sociedade que esconde os seus podres debaixo do tapete do imaculado lar. O problema do papel estereotipado da mulher na sociedade — esposa, mãe, crente, discreta e obediente — vivido em plenitude, pelo menos na aparência, é, neste romance, colocado numa dupla perspectiva. A questão das mentalidades é talvez, a mais evidente desde o início, desde que é traçado o perfil da sociedade algarvia. Porém, se a personagem de Nada lhe Será Perdoado encontrou a coragem para enfrentar essa sociedade, materializando essa coragem no confronto com a avó, e se aprendeu a contorná-la em Lisboa pelo fingimento, há um último obstáculo que ela não consegue vencer. Na realidade, o problema que, julgo, Maria Archer mais insiste em expor e em tornar evidente é o da independência económica. Não há verdadeira independência sem independência económica e, como bem alerta a escritora, não tendo acesso a algo tão básico como dinheiro e sem meios próprios para o conseguir, Biluca não poderia ter outro fim senão o fracasso.

*A Urgência de Contar. Contos de Mulheres dos anos 40, organização de Ana Paula Ferreira, Editorial Caminho, Lisboa, 2002, p. 277.

Edição usada:
Nada Lhe Será Perdoado, Maria Archer, Edições SIT, Lisboa, s/d.

Podem encontrar esta obra na edição da Pareceria A. M. Pereira.

sexta-feira, maio 11, 2007

Poesia na SPA

A Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) promove nos próximos dias 14, 21 e 30, em Lisboa, três debates sobre a poesia portuguesa e a sua função nos tempos que correm.

António Carlos Cortez, crítico de poesia, enquadra os movimentos e as obras ao longo dos três debates.
Na segunda-feira, estarão em foco os anos 60, a poesia de Fiama Hasse Pais Brandão, Luísa Neto Jorge e Ruy Belo.
No dia 21, o debate centra-se nos anos 70 e na poesia de Nuno Júdice, António Osório, Joaquim Manuel Magalhães e João Miguel Fernandes Jorge.
No último debate, dia 30, são os últimos 20 anos e a poesia de Luís Miguel Nava, Paulo Teixeira, Manuel Gusmão, Luís Quintais e Daniel Faria o tema da conversa.

Os debates começam às 18:30 na sede da SPA, em Lisboa.

Diário Digital / Lusa

quinta-feira, maio 10, 2007

"Leitura furiosa"

Tomei conhecimento desta iniciativa através do Jornal de Notícias, de onde retiro o texto abaixo transcrito.

O objectivo é ir ao encontro de jovens excluídos que, pelas mais variadas razões, arredaram os livros das suas vidas. Por isso, a iniciativa não podia ter outro nome nem os destinatários poderiam ser outros "Leitura furiosa" arranca hoje, no Porto, junto de grupos de "zangados com a leitura" do Centro Educativo Santo António e da Qualificar para Incluir. O programa começa com encontros entre os escritores Regina Guimarães e Pedro Eiras e jovens das referidas instituições.

A partir dessas conversas, que vão decorrer durante o dia de hoje, cada um dos escritores envolvidos vai elaborar um texto que, amanhã, será discutido e corrigido com os intervenientes, em sessões que vão contar com a presença de João Alves e Sofia Lomba, a quem cabe ilustrar este trabalho. Ao fim do dia, os textos são enviados para a associação Cardan, que desenvolve este projecto em França desde 1993. Este ano, além do Porto, também a cidade de Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, se alia à iniciativa da associação, sediada em Amiens.

Os escritos resultantes dos encontros do Porto e de Amiens, assim como as respectivas ilustrações, serão publicados na edição de domingo do Jornal de Notícias. Para esse dia está marcada uma sessão pública de leituras musicadas, com base nesses textos, pela voz de Ana Deus. Será no Museu de Serralves, a partir das 16 horas.

No âmbito da "Leitura furiosa" está ainda prevista uma ronda por várias livrarias do Porto, na manhã de sábado, que culminará com uma visita à Biblioteca Almeida Garrett. A ideia é que nesse passeio participem, se não todos, pelo menos alguns dos jovens envolvidos nesta iniciativa.

Segundo Regina Guimarães, este projecto "não é uma oficina da escrita nem uma oficina de leitura". "Leitura furiosa" parte de encontros "entre escritores com obra publicada e grupos de pessoas que, por razões diversas, não lêem ou não gostam de ler". Tudo para "fazer com que essas pessoas presenciem um momento que vai ter existência escrita" e, por outro lado, "fazer com que pessoas que, liminarmente, rejeitam a leitura, possam reconsiderar essa relação negativa", conclui.

"Leitura furiosa" é uma iniciativa do Serviço Educativo de Serralves, tendo sido estabelecidos protocolos com as citadas instituições.

quinta-feira, maio 03, 2007

Ler os clássicos




Li Homero pela primeira vez quando entrei para a faculdade, o que rapidamente se provou ser um erro, ainda que por razões que parecem fazer afronta às regras mais básicas da lógica. A altura não foi a melhor: comecei a ler a Ilíada e a Odisseia tarde demais e cedo demais. Tarde demais, porque não devia ter esperado até que ler Homero fosse uma obrigação; cedo demais, porque quando o fiz ainda não existiam as traduções de Frederico Lourenço e as edições da Cotovia. Li, pois, a Ilíada e a Odisseia em duas edições de bolso, o que, desde logo, antevi ser meio caminho andado para uma leitura penosa. E, realmente, foi penoso ler os feitos de Aquiles e de Ulisses numa tradução de outra tradução, com um corpo de letra minúsculo, com uma mancha que não deixa espaços em branco, nem para o leitor respirar.

Durante noites a fio, mais do que as que seriam necessárias para ler os dois volumes, me debati com a vontade de ler tudo na diagonal, e o dever de ler, no fundo, uma das mais importantes matrizes da literatura ocidental. Ler a Odisseia era mais fácil, a narrativa das aventuras de Ulisses parece resistir melhor, pelo menos para mim, a uma má edição. Terá ajudado, muito provavelmente, o facto de ter lido, ainda em criança, a adaptação do texto homérico feita por João de Barros e já conhecer todos os episódios da viagem de Ulisses. Quanto à Ilíada, devo confessar que a tarefa não foi tão fácil e, muito honestamente, a cada página que passava, não via a hora de Aquiles matar Heitor. Em abono da verdade, para esta impaciência não ajudava o facto de ter de ler a Ilíada quase em contra-relógio, uma vez que em fila de espera já se encontravam a Odisseia e a Eneida.

Mesmo assim, julgo que o grande problema está em haver quem ainda não tenha compreendido que ler um livro numa edição de bolso não tem que ser um castigo que quem não tem a possibilidade de comprar outras edições tem que sofrer. Uma edição de bolso, como o comprovam os livros ingleses, franceses ou, aqui mais perto, espanhóis, pode ter um custo mais baixo sem que isso resulte num produto de fraca qualidade. Não podemos esquecer que o compromisso de um editor para com os compradores dos seus livros não é apenas o de ir acrescentando títulos ao seu catálogo, mas sim, e principalmente, de fazer chegar até aos leitores objectos de qualidade, tanto ao nível de conteúdos como ao nível gráfico. Um bom livro não se faz simplesmente com um bom texto e um mau livro pode desvirtuar a leitura de uma obra, por melhor que esta seja.

Apesar de tudo, li os dois livros, integralmente. Porém, passado o alívio inicial, a leitura não me deixou em bons termos com Homero. Eu sabia que tinha lido, mas não sentia como se tivesse realmente lido. Não consegui apropriar-me do texto. Quando as novas edições da Ilíada e da Odisseia foram publicadas com a chancela da Cotovia, e tive oportunidade de as ir folheando nas livrarias, comecei a achar que estava na altura ler os clássicos novamente, em especial a Ilíada. Ainda não o pude fazer, mas vou lendo a Ilíada num suporte alternativo. A beleza dos clássicos, é que, em relação a eles, o verbo «ler» não se usa no passado, porque a sua leitura não acaba no acto físico de abrir um livro, de ler, de ir virando as páginas. A minha leitura da Ilíada é, afinal, contínua e sempre renovada, sem que eu tenha voltado a abrir o meu livro.

domingo, abril 22, 2007

"E se eu gostasse muito de morrer"



Primeiro romance do jornalista Rui Cardoso Martins, E se eu gostasse muito de morrer parte de um facto («são estatísticas e está tudo em números») e de uma pergunta inevitável: a taxa de suicídios é mais elevada no Alentejo do que no resto do país. Porquê?

O livro de Rui Cardoso Martins foi publicado ainda em 2006 e foi há cerca de dois meses que o li, depois de assistir a uma apresentação da obra feita pelo autor, na Biblioteca Municipal de Póvoa de Santa Iria. Ao ouvir o escritor falar da sua obra era impossível não satisfazer a curiosidade com que fiquei em relação a este livro, que, aliás, já me tinha chamado a atenção nos escaparates das livrarias, obviamente pelo título.

E se eu gostasse muito de morrer, título que é, também, uma citação da obra maior de Dostoievski, Crime e Castigo, aborda em forma de romance um tema que parece, pelo menos à primeira vista, mais fácil de tratar num estudo sociológico do que numa obra de ficção. A escolha singular, todavia, não me tornou de modo nenhum céptica em relação ao livro. Muito pelo contrário, já que era grande a vontade de o ler e descobrir qual a maneira encontrada por Rui Cardoso Martins para versar sobre este tema no género por ele eleito.

À partida, eram dois os problemas que me pareciam poder dificultar a tarefa de centrar um romance no que, afinal, é um dado estatístico e, no reverso da medalha, uma realidade humana de contornos trágicos. Ou a narrativa acabaria por mergulhar demasiado no lado mais dramático do suicídio, ou, no extremo oposto, à força de querer abordar a questão de forma excessivamente objectiva, o resultado seria, justamente, um estudo sociológico e não um romance.

Felizmente, Rui Cardoso Martins conduz a narrativa sem cair em nenhum dos extremos, facto que muito deve à escolha do narrador. Um rapaz que perdeu a sua mais importante ligação ao mundo exterior oferece-nos a sua visão peculiar do mundo, do Alentejo (onde sempre viveu), das pessoas que o rodeiam... É esta marca pessoal que nos conduz numa série de episódios em que a tragédia é contada com ironia e, por vezes, até com humor (negro, claro está). A perda de alguém que não morreu, deixa o narrador sozinho a contas com um lugar cuja história é feita da memória dos que ali optaram pela morte. É intrusada na morte nos outros que vamos ficando a conhecer a vida do nosso narrador, sendo a sua própria história fragmentada ao longo do livro (espelho do que mundo em que vivemos?).

E se eu gostasse muito de morrer fala-nos de um Alentejo distante da miragem de paredes caiadas de branco e vida calma que nos habituamos a evocar sempre que pensamos no sul do país. Aqui, é uma imagem decadente daquela região que é trazida à superfície; um Alentejo marcado por uma realidade ainda por explicar. Ao chegarmos à última página, a questão inicial continua sem resposta: porquê?... Abyssus abyssum invocat.


Rui Cardoso Martins, E se eu gostasse muito de morrer, 3.ª edição, Dom Quixote, Lisboa, 2007.


sábado, abril 21, 2007

Anna Enquist


Disse, há uns tempos, que a poesia passaria a estar mais presente no Olho da Letra. A partir de agora deixarei aqui os poemas e os poetas que vou descobrindo (ou redescobrindo).

Hoje, é um poema da holandesa Anna Enquist que aqui fica. Anna Enquist (1945), pseudónimo escolhido por Christa Widlund-Boer, viu o seu primeiro livro de poemas, Soldatenliederen (título que poderá ser traduzido em português como “canções de soldados”), publicado em 1991. Embora a maior parte da sua obra seja dedicada à poesia, é também autora de romances. Alguns dos seus livros já foram traduzidos entre nós (O Segredo e A Obra-prima), mas ainda não conheço a Anna Enquist romancista.

Descobri o poema “Mentiras em tempo de Groselhas” numa antologia de poesia neerlandesa, editada pela Assírio & Alvim. Uma Migalha na Saia do Universo reúne poemas belgas e holandeses do século XX, numa selecção de Gerrit Komrij. Se tiverem oportunidade, vale a pena lerem este livro, a começar pela introdução de Gerrit Komrij. Uma vez que esta é uma edição bilingue, aqui fica o poema de Anna Enquist em neerlandês e em português.

Leugens in Bessentijd

Welke constructie is steviger, heeft langer
standgehouden. En hoe meer er wonen, hoe
minder je wegkomt. Waarheen. Het verlangen
is een zomerhuis zonder kookplaats en zonder
geschiedenis. Hier ben ik omdat ik hier ben.


Vannacht was ik wakker, het waaide, regen
striemde de kastanje terwijl het al licht werd,
de nacht had geen rust gebracht. Ik wist
wel hoe dat zat, ging slapen en ontwaakte
in een stille morgen, wit van verdriet.

Men kan niet blijven zeuren. De pruimen
ploffen rottend van de bomen, in de koude
tuin worden de kleuren snel ouder.
Alles er-
varen zonder verdoving, pannen klaarzetten en
suiker, archieven beheren, scherven bewaren.

Mentiras em tempo de groselha

Que construção é mais sólida, se aguentou
mais tempo. E quantos mais aí moram, menos se
a consegue abandonar. Para onde. Anseia-se
por uma casa de Verão sem um fogão e sem
história. Estou aqui porque estou aqui.


Esta noite estive acordada, fazia vento, chuvas
fustigavam o castanheiro, enquanto já vinha o dia,

a noite não tinha trazido paz. Eu sabia

como eram as coisas, fui dormir e acordei

numa manhã de silêncio, lívida de tristezas.


Não se pode continuar com lamúrias. As ameixas
baqueiam podres das árvores, no frio
quintal as cores envelhecem velozes. Experi-
mentar tudo sem anestesia, pôr a postos as panelas e
o açúcar, gerir os arquivos, guardar os cacos.


Uma Migalha na Saia do Universo, selecção e introdução de Gerrit Komrij, tradução de Fernando Venâncio, Assírio & Alvim, Lisboa, 1997.

sexta-feira, abril 20, 2007

"Vou morar no arco-íris"

Tendo percorrido escolas de norte a sul do país para estar mais perto dos seus leitores e melhor lhes dar a conhecer a sua obra, Alexandre Parafita irá agora apresentar o seu mais recente livro. Será no Dia Mundial do Livro, na próxima segunda-feira, a próxima sessão de lançamento de Vou Morar no Arco-íris, num encontro que terá lugar na Biblioteca Municipal de Murça. Fica aqui a notícia para quem passar os olhos por estas letras e viva naquela zona do país. Para quem viver mais a sul, não se esqueçam de procurar o título Vou Morar no Arco-íris numa próxima visita a uma livraria.

terça-feira, abril 17, 2007

Biblioteca pessoal de Calouste Gulbenkian

Soube hoje, ao abrir a minha caixa de correio electrónico, que a biblioteca pessoal de Calouste Gulbenkian vai estar disponível online a partir do próximo dia 19. A apresentação pública desta biblioteca vai realizar-se no mesmo dia pelas 16h. Fica aqui a notícia completa que pode também ser consultada no site da Gulbenkian.


A biblioteca pessoal de Calouste Gulbenkan vai estar disponível para consulta a partir de 19 de Abril no site www.bibliotecaparticular.gulbenkian.pt. O projecto resulta de dois anos de trabalho de identificação, catalogação e recuperação dos cerca de três mil volumes que constituem a biblioteca pessoal do fundador e foi desenvolvido no âmbito das comemorações do cinquentenário da Fundação.

Calouste Gulbenkian reuniu ao longo da sua vida uma importante biblioteca actualmente dividida em dois grandes núcleos. O núcleo constituído pela colecção de manuscritos e obras impressas que ilustram a Arte do Livro no Oriente e no Ocidente, entre os séculos XIII e primeira metade do século XX, encontra-se integrado no acervo do Museu Gulbenkian. O outro núcleo, constituído por cerca de três mil títulos de publicações abrangendo os mais diversos domínios do conhecimento, encontra-se depositado no fundo documental da Biblioteca de Arte, tendo dado origem a muitas das secções temáticas – Pintura, Arquitectura, Desenho, Mobiliário, Cerâmica - da sua actual organização.

Este núcleo, agora disponibilizado para consulta, constitui um instrumento importante para a compreensão da personalidade, dos gostos e preferências estéticas do Fundador, revelando uma parte relativamente desconhecida do legado cujo acesso é reservado, por razões que se prendem com o seu inegável valor patrimonial.

segunda-feira, abril 09, 2007

Teatro Popular Mirandês

Tomei conhecimento da iniciativa através do Jornal de Notícias e a curiosidade encarregou-se de me fazer chegar até ao site do Centro de Estudos António Maria Mourinho. A notícia dava conta do projecto levado a cabo pelo referido centro de estudos de publicar na Internet trinta textos do Teatro Popular Mirandês. A edição destas peças é feita com base em textos que fazem parte do espólio do Padre António Marinho e vem, assim, colocar ao alcance de todos um importante documento literário e cultural que, permanecendo escondido, correria o risco de cair no esquecimento e acabar por se perder.

A publicação destes «colóquios» do Teatro Popular Mirandês, como é dito no texto de apresentação colocado no site, irá realizar-se de duas formas, uma vez que cada texto irá ser disponibilizado em edição digitalizada e em edição interpretativa. A primeira é o resultado da escolha de um exemplar, no caso de haver mais do que um no espólio, para o efeito; a segunda passou já por um processo de normalização de aspectos gráficos e ortográficos, devidamente identificados na informação dada acerca dos critérios de edição, e é acompanhada por notas explicativas referentes, por exemplo, a «mirandesismos e às muitas referências culturais, etnográficas ou históricas à Terra de Miranda, de mais difícil percepção para quem não fale mirandês ou não conheça a história da região.» Se a edição digitalizada, potencialmente, irá interessar mais a linguistas, como é referido no site, e, acrescento eu, todos aqueles que tenham conhecimentos de linguística e se interessem por esta área do saber, já a edição interpretativa tem a virtude de poder levar o Teatro Popular Mirandês a um público mais vasto. Importa também dizer que, após a publicação on-line, prevê-se a publicação destes textos em livro.

Diz Francisco Pinto, jornalista que assina esta notícia sobre a publicação do Teatro Popular Mirandês, que «os textos não se destinam apenas a investigadores mas também a grupos de teatro e associações que pretendam levar à cena este género de representação.» Eu digo que esta iniciativa certamente interessará a todos os leitores e a todos quantos se preocupam com as perdas provocadas pelo esquecimento.


Centro de Estudos António Maria Mourinho

Teatro Popular Mirandês


terça-feira, abril 03, 2007

Maria Archer



Acabada de chegar à minha biblioteca, vinda da livraria Letra Livre, esta 1.ª edição do romance de Maria Archer Nada Lhe Será Perdoado, de 1952, é um importante contributo para a bibliografia que vou tentando reunir e ler sobre a «literatura feminina», ou «literatura no feminino», como preferirem. Como não é todos os dias que consigo encontrar uma primeira edição, não podia deixar de escrever esta breve nota sobre a minha aquisição. Aproveito também para transcrever a nota bibliográfica redigida por Ana Paula Ferreira sobre a escritora Ana Archer, que podem encontrar no livro A Urgência de Contar. Contos de Mulheres dos anos 40.





Nada Lhe Será Perdoado, Maria Archer, Edições SIT, Lisboa, s/d.






Maria Archer (Lisboa, 1905-1982)

Ficcionista, jornalista e ensaísta prolífica, Maria Emília Archer Eyrolles Baltasar Moreira deixou-nos o que se pode considerar um panorama da vida privada, ou das mentalidades e condutas características de certa faixa burguesa e pequeno-burguesa da sociedade portuguesa entre as décadas de trinta e cinquenta. Tendo vivido e, mais tarde, passado temporadas em África, onde recolhe apontamentos históricos e etnográficos, a autora colabora com várias monografias para os «Cadernos Coloniais», desde o início da série em 1935. A maior parte deste material será depois incluído nos seus livros de divulgação colonial, o primeiro dos quais é Roteiro do Mundo Português (1940). Em 1938, o seu livro de literatura infantil, Viagem à Roda de África, ganha o prémio Maria Amália Vaz de Carvalho, do Serviço de Propaganda Nacional. Nesse mesmo ano, aparece o seu segundo livro de novelas, Ida e Volta de Uma Caixa de Cigarros, retirado do mercado em 1939. O arrojo com que se move na sociedade do seu tempo como mulher livre e de ideias avançadas, arrojo que estende a uma obra de ficção denunciando a dependência social, económica, espiritual e sexual femininas, levam-na a ser vista como «uma escritora incómoda». Essa será, pelo menos em parte, a razão pela qual alguns dos seus livros gozam de relativo sucesso junto do grande público, como o provam as suas reedições. O seu romance Casa Sem Pão (1947) é também apreendido pela Censura. Vivendo à custa do seu trabalho e exibindo uma impressionante cultura, de cunho anglófilo em particular, a autora colabora assiduamente em revistas e jornais de Portugal, das então colónias africanas e, mais tarde, do Brasil. É também tradutora de Hellen Grace Carlisle, Anton Coolen e Voltaire. Filiada no Movimento de Unidade Democrática desde 1945, é alvo de perseguições que se intensificam após ter feito a reportagem do julgamento de Humberto Delgado em 1952. Em 1954, exila-se no Brasil , onde publica várias obras de divulgação colonialista (muito embora críticas do regime salazarista), merecendo este filão da sua obra o elogio de, entre outros, Gilberto Freyre. A autora volta a Portugal em 1977, doente e na mais completa destituição, acabando os seus dias num asilo.

Bibliografia parcial:

Três Mulheres (novela, 1935)
Sertanejos (Cadernos Coloniais, 1935)
África Selvagem, Folclore dos Negros do Grupo Bantú (Cadernos Coloniais, 1936)
Ida e Volta de Uma caixa de Cigarros (novelas, 1938)
Há Dois Ladrões Sem Cadastro (novela, 1940)
Roteiro do Mundo Português (divulgação histórica, 1940)
Herança Lusíada (divulgação histórica, com Prefácio de Gilberto Freyre, 1940)
Fauno Sovina (contos, 1941)
Ela É apenas Mulher (romance, 1944)
Casa Sem Pão (romance, 1947)
Há-de Haver Uma Lei (contos, 1949)
Filosofia de Uma Mulher Moderna (contos, 1950)
O Mal não Está em Nós (romance, 1950)
Bato às Portas da Vida (romance, 1951)
Nada Lhe Será Perdoado (romance, 1952)
A Primeira Vitima do Diabo (romance, 1954)
África Sem Luz (contos, 1962)
Brasil, Fronteira de África (divulgação, ensaísmo, 1962)*

*A Urgência de Contar. Contos de Mulheres dos anos 40
, organização de Ana Paula Ferreira, Editorial Caminho, Lisboa, 2002, pp. 277-278.